sábado, 6 de abril de 2024

Ziraldo partiu, Senhor! , por Manassés Filho

 


Lá estava a notícia! Hoje, 06/04, às 15h, faleceu em casa, em um apartamento no bairro da Lagoa, na Zona Sul do Rio, o cartunista, Ziraldo.

Um dos meus primeiros pensamentos após lamentar a morte do grande Mestre, foi uma certa tranquilidade por saber que ele partiu dormindo. 


É estranho compor um texto sobre alguém que não se conhece, mas que de alguma forma se fez tão presente desde a minha infância. Sendo assim, descrever a genialidade de Ziraldo é uma tarefa homérica tanto por sua importância artística, diversidade de estilos e sua riqueza textual.


Nascido em 24 de outubro de 1932 em Caratinga (MG),era o mais velho de uma família com sete irmãos. Seu nome incomum era fruto da combinação do nome da mãe (Zizinha) com o nome do pai (Geraldo).

Desde criança despertou interesse pelas artes, e aos seis anos teve seu primeiro desenho publicado no jornal “A Folha de Minas”.

Esse primeiro contato entre sua arte e jornal veio a se consolidar em 1950, com o início de sua carreira ao publicar na revista “Era uma vez...” e quatro anos mais tarde, vem a produzir uma página de humor para o jornal “A Folha de Minas.


Em 1957, formou-se em Direito na Faculdade de Direito de Minas Gerais, em Belo Horizonte. No mesmo ano, entrou para o time das revistas “A Cigarra” e, depois, a icônica “O Cruzeiro”. Em 1958, casou-se com Vilma Gontijo, sua namorada tinha sete anos e com ela nasceram seus filhos Daniela, Fabrizia e Antônio.


Na década de 60, destacou-se por trabalhar também no “Jornal do Brasil”. Assim como em “O Cruzeiro”, publicou charges políticas e cartuns. São dessa época os personagens Supermãe, Mineirinho e o emblemático e ainda atual, Jeremias, O bom, que apresenta uma bem-humorada crítica à sociedade e seus bons costumes.

Um fato curioso nesse período, é que em paralelo a sua produção dos citados personagens, ele concretizou seu sonho de infância ao produzir de forma autoral suas histórias em quadrinhos que fazia uma grande homenagem a riqueza do folclore de nossa Terra Brasilis, nascendo assim a “Turma do Pererê”, que apresenta as aventuras de personagens como a como a onça, o jabuti, o tatu, o coelho e a coruja

Sua ampla e crítica visão em relação ao seu país, o conduziram a fundar com outros humoristas na mesma década o icônico “O Pasquim”, que com um misto harmônico entre textos, humor, ilustrações, deboche, crítica e personagens inesquecíveis, como o Graúna, os Fradins ou o Ubaldo, o semanário entrou na luta pela democracia e consolidou-se como um dos principais veículos a combater a ditadura militar no Brasil.


Para ter uma ideia da grandiosidade da publicação, o grupo era composto por nomes como: Millôr Fernandes, Henfil, Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Ivan Lessa, Sérgio Augusto, Paulo Francis Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara, Gláuber Rocha e diversos intelectuais cariocas. E com essa junção de diversos talentos e temas, O Pasquim, transformou-se em um grande fenômeno editorial que inicialmente teve uma tiragem de 20 mil exemplares e chegou a atingir a marca de mais de 200 mil em seu auge, em meados dos anos 1970, se tornando um dos maiores fenômenos do mercado editorial brasileiro.

Mas uma publicação como essa não passaria em branco para órgãos de censura da época, e um dia depois do AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, Ziraldo foi detido em casa e levado para o Forte de Copacabana, mas essa ação não abrandou sua veia crítica.


Seu maior sucesso, “O Menino Maluquinho”, saiu em 1980 desde sua primeira publicação, teve 129 edições, foi publicado em mais de 10 países, vendeu mais de 4 milhões de exemplares. Considerado um dos maiores fenômenos do mercado editorial brasileiro em todos os tempos e que foi adaptado para o cinema em 1995, ganhou uma continuação em 1998 intitulada de Menino Maluquinho 2 - A Aventura, em 2006, ganhou  a série, Um Menino Muito Maluquinho, com 26 episódios, sendo exibida pela TV Brasil e  2022 foi produzida uma série animada para a Netflix que acabou concedendo uma indicação ao Emmy 2023 na categoria “Melhor Animação Infantil”.

Entretanto, Ziraldo, era um multiartista com produções que vão além das HQs, em 1969, publicou seu primeiro livro infantil, “FLICTS”. Em 1979, passou a se dedicar à literatura para crianças com obras que mesclavam o lúdico e o educacional como “O alfabeto do Ziraldo” e mais o recentemente o belo e poético “Menina Nina - Duas Razões para não chorar” que foi escrito para ajudar a explicar para a neta Nina sobre a morte da avó, Vilma, que foi mulher do cartunista.


Outro ponto da carreira pouco conhecida de Ziraldo, foram as incríveis composições de cartazes de filmes nacionais durante os anos 60, entre eles, estão para o filme “Os Fuzis” (1962), de Ruy Guerra; “Assalto ao Trem Pagador” (1962), de Roberto Farias; “Boca de Ouro” (1963), de Nelson Pereira dos Santos; “Todas as Mulheres do Mundo” (1966), de Domingos de Oliveira. 

O mais interessante desta fase é que muitos deles passam longe de seu característico estilo de desenho e denotam sua versatilidade,

Porém, entre suas obras, uma delas chama a atenção por sua ousadia, o imponente Mural do Canecão, por muitos anos a principal casa de shows do Rio de Janeiro e uma das principais do Brasil. 


O mural foi produzido em 1967, ao longo de seis meses de trabalho, e ainda hoje chama a atenção pelo estilo inspirado nos traços de pintores como Pablo Picasso e Cândido Portinari.


Nele podemos ver uma "Santa Ceia" regada a cerveja, em um cenário carioca. Na época, em 1967, em pleno regime militar, a obra foi alvo de críticas e considerada transgressora.


E na fala do próprio Ziraldo “Tem a Arca de Noé com os bichos, tem os Arcos da Lapa, tem a vista do Papa ao Rio de Janeiro. Tem as cariocas chegando para a festa, animadíssimas. Tem o cara celebrando na mesa de bar. Tem o sujeito de porre, tem o cara dando cachacinha para o santo. Tem toda uma visão brasileira sobre o ato de beber. Não tem ninguém comendo. Estão todos comemorando. Tem muitos brindes” diz Ziraldo.

Considerada uma das maiores obras murais do país, com 32 metros de largura por 6 metros de altura, o painel é considerado uma das obras primas de Ziraldo, um homem que viveu e produziu intensamente seu amor à arte e que mesmo nos deixando, seu legado acompanhará inúmeras gerações.



quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Spawn, O soldado do inferno volta a ser publicado no Brasil, por Lucas Freitas


 Na Trilha da Cria do Inferno


Durante muito tempo, fiquei na dúvida sobre como deveria começar esta coluna - um problema que, odeio admitir, é um tanto quanto recorrente no meu processo de criação. Não só pelo começo do texto em si, mas também pelo próprio tema. Afinal, por mais que seja um prazer falar sobre quadrinhos, cinema e livros, em algum momento, temos que escolher um tema em particular para elaborar o texto, e é nessa ocasião que enfrentamos o famoso Paradoxo da Escolha.

Mas não é sobre isso que irei falar hoje.


Enquanto pensava e repensava sobre o que poderia ser meu tema, vi a notícia, ainda no dia 31/01, de que a Panini Comics iria relançar o Spawn no Brasil, e foi assim que, quando menos esperava, consegui meu tema.


Para quem não conhece o personagem, Spawn é a criação do artista Todd McFarlane, e é o alterego do tenente-coronel Al Simmons que, após ser traído pelo seu chefe, é morto e enviado para o Inferno, onde vende sua alma por uma chance de reencontrar sua esposa, Wanda. Mas como em todo pacto fáustico, existe um porém: apesar de ser trazido de volta à vida, Simmons volta cinco anos após a sua morte, em um corpo completamente carbonizado, e descobre que sua esposa não só está casada com seu melhor amigo, mas que também tem uma filha com ele. Como se isso não fosse o suficiente, como Spawn, Simmons é agora um Soldado do Inferno, tendo que desempenhar um papel importante na batalha final entre as forças do Paraíso e do Inferno, ainda que a perspectiva de cumprir sua parte da barganha após ser enganado não lhe agrade muito.


O que se segue é uma série de confrontos entre demônios, anjos, mafiosos, agências do governo, gorilas cibernéticos e o que quer que Todd McFarlane estivesse querendo escrever na época e que pudesse ser traduzido de forma visualmente excitante para o público adolescente facilmente impressionável no boom da image Comics dos anos 90.

Apesar de não ter pego esse boom inicial, eu também já fui um adolescente facilmente impressionável em algum ponto, e, assim como tantos outros antes e depois de mim, me vi capturado pelo mundo sombrio e miserável da Cria do Inferno.


Curiosamente, assim como no caso do próprio Al Simmons, esse foi um encontro de cartas marcadas desde o início.


Desde pequeno, sempre fui fascinado por esse universo do horror que hoje é meu ramo de escrita. Dos desenhos animados como Coragem, o Cão Covarde a filmes como O Estranho Mundo de Jack, o terror e o estranho sempre estiveram lá, por mais irônico que possa parecer para alguém que não é, nem de longe, um paradigma de coragem e bravura. Ainda assim, como resistir ao seu chamado? Quanto mais aterrorizante a criatura, quanto mais terrível o filme, maior a curiosidade que ele provocava. E foi assim que o que começou com um interesse de infância foi crescendo e ganhando forma também em outras mídias, como nos contos de Poe e Lovecraft, e nos filmes com suas infinitas Sexta-Feiras 13 e Mortes do Demônio.

Nos quadrinhos, esse fascínio me levou a conhecer personagens como o Motoqueiro Fantasma - outro caso clássico de pacto fáustico - e o Monstro do Pântano, por exemplo, assim como o próprio Cruzado de Capa e sua Gotham cheia de sombras opressivas e gárgulas onipresentes, esta já uma velha conhecida desde os filmes de Tim Burton.


Ainda assim, por maiores que fossem os mestres que passaram por cada um desses títulos, nenhum teria como ter me preparado para o que estava para encontrar em Spawn.


Com uma arte suja e violência visceral, McFarlane apresentou um mundo marcado pela corrupção, seja dos ambientes físicos, como nos becos imundos onde Spawn faz sua morada, seja moral, através das instituições e líderes mais interessados em seu próprio bem-estar e prazer, indiferentes ao sofrimento que causam aos demais, contanto que seus desejos possam ser realizados. E é nesse contexto que surge a Cria do Inferno, ele próprio uma personificação dessa corrupção, preso numa rede de intrigas e violência praticamente infinitas. Mas, longe de ser um redentor de seu mundo, Simmons segue a mesma lógica, mais preocupado em realizar seus próprios objetivos do que em proteger ou salvar as vidas que se encontram em perigo.


E se o mundo mortal não oferece qualquer tipo de paz ou perspectiva de redenção, o mesmo vale para o pós-vida, onde ambos os lados, sejam o Paraíso ou o Inferno, se equivalem em sua moralidade distorcida, preocupados demais em vencer seus oponentes para se importar com as consequências de suas ações.

Mas, por mais importante que tenha sido a participação de McFarlane na criação desse mundo, será apenas com a chegada do grande Greg Capullo, com seu traço pesado e estilizado, que esse universo sombrio, sujo e miserável alcançará sua forma definitiva, sendo dele a concretização de toda a estilística que representa o Spawn e seu universo.


Se falo muito na arte e na ambientação da série, é porque, infelizmente, esta é de longe um de seus pontos altos. Por mais que adore o personagem, é inegável que, na grande maioria das vezes, ele foi vítima do efeito Image - onde a arte incrível prevalecia sobre a substância das histórias, o que provocou coisas, digamos, desastrosas.


Não que ele só tenha histórias ruins, algumas das histórias do próprio McFarlane, em particular as 5 edições iniciais, apresentam bem o personagem e seu mundo, posicionando-o de modo claro em relação aos demais heróis do mercado. O começo de sua primeira jornada pelo Inferno também é digna de nota, assim como a passagem de Brian Holguin que passará a auxiliar o Todd na elaboração dos roteiros a partir da edição 71. Ainda assim, Spawn talvez seja um dos personagens com uns dos piores históricos em termos de história que me vêm em mente quando penso nisso.


Ainda assim, por mais canhestras que essas histórias pudessem ser, a arte que construiu Spawn, com seus becos imundos, capas longas e esvoaçantes, sombras onipresentes e abominações de todos os tipos foram - e ainda são - um parto cheio para esse hoje já não tão jovem admirador do terror, de modo que não é sem uma certa alegria que comemoro a volta do Soldado do Inferno ao meio editorial brasileiro.

E enquanto esse retorno não se concretiza, permanecemos aqui, seguindo a trilha de corpos deixada pela Cria do Inferno…


Até a próxima!





sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Cinema LGBTQIA+, por Rita Barbosa

 

 

Circumstance é um filme de 2011, de estreia da diretora, Iraniana-Americana, Maryam Keshavarz, que apesar de ter sido filmado no Líbano, tem sua narrativa desenvolvida no Irã moderno.

    Atafeh Hakimi (Nikohl Boosheri) é uma jovem de 16 anos de uma família rica de Teerão, no Irã. Shireen (Sarah Kazemy),  uma órfã cujos pais eram anti-revolução.  

Também temos o irmão de Atafeh, Mehran  (Reza Sixo Safai), ex-viciado em drogas, que literalmente troca o vício das drogas  pelo fanatismo religioso. Mehran é peça chave para o clima angustiante presente em  grande parte do filme.

    Apesar de ter sido pouquíssimo divulgado, Circumstance vai  muito mais além, do que a princípio esperamos encontrar. Se você procura uma  história de amor para aquecer seu coração, pare por aqui! Circumstance é um tapa em  nosso rosto, ou um soco no estômago, ele  nos presenteia com o tipo de história que a  todo momento nos faz pensar: " como assim!?", que nos faz pausar o filme diversas vezes para  respirar fundo, nos dando um choque de realidade de que isso existe, e que sim, as mulheres  passam por tudo isso e mais um pouco nessas regiões. Maryam Keshavarz conseguiu fazer algo  surpreendente, abordando um tabu em um país que não tolera sua manifestação, muito menos  permite a adaptação cinematográfica. E ela fez isso não apenas graficamente, mas mesclando sensualidade a realidade dura e crua do Irã islâmico! O design de produção e a atuação do elenco entregam uma credibilidade que dá a toda a produção uma sensação de autenticidade difícil de alcançar.



    Não pretendo dar spoilers, mas quando estamos assistimos, Circumstance, temos a todo o momento a incomoda sensação de que algo desagradável vai acontecer com as protagonistas, a  incomoda sensação de que cada passo dos personagens estão sendo vigiados, algo que acredito,  foi intencional da Diretora, como uma crítica ao sistema opressor vivido pelo País desde a  revolução de 1979, onde o Irã tornou-se Estado Islâmico, e aqui vai outra dica, reparem nos mínimos detalhes, pois ela nos permite observar e sentir a hostilidade presente nessa realidade  nos mínimos detalhes do filme. Observamos no filme a luta entre o conservadorismo e a independência, e o quão desigual são os oponentes. Infelizmente, Circumstance não recebeu a atenção e divulgação merecida, poucos outros filmes tiveram a coragem de abordar assuntos tão polêmicos e importantes a respeito de uma sociedade tão fechada e repressora, e uma das  consequências desse ato de coragem foi o filme e os atores serem banidos do Irã desde seu  lançamento. 



    O fato é, um filme tão revelador como este, dirigido por uma mulher, sobre duas amantes, ocorrendo no conservador Oriente Médio merece nosso tempo, atenção e olhar crítico. Então é  isso meu caro leitor, prepare as lágrimas, segure os ímpetos de revolta que surgirão durante o filme,  a ressaca moral que você muito provavelmente irá sentir no final, e bom filme! 


"Circumstance".
Estados Unidos/Irã,, 2011.

Direção & Roteiro: Maryam Keshavarz. 
Elenco: Sarah Kazemy, Nikohl Boosheri, Reza Sixo Safai

Onde ver: MUBI e Google Play








quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Os moídos de Samuel Gois, por Vitória Maria



 “O MUNDO É UM MOÍDO” DE SAMUEL DE  GOIS

por Vitória Lima

O intertexto original deste livro de Samuel de Gois, a música de Cartola, que está insinuado no próprio título do livro, “O mundo é um moído”. A intertextualidade não é nenhuma novidade no mundo literário e é amplamente empregado pelos mais diversos criadores. No texto original, o samba de Cartola,  temos “o mundo ´é um moinho”, o que nos conduz diretamente a outro texto, o clássico “Don Quixote”, de Cervantes. Este intertexto se revela e multiplica pelas páginas do livro, através das relações que se desmancham, que são retratadas. 

Diz Cartola:

“Ainda é cedo amor

Mal começaste a conhecer a vida

Já anuncias a hora de partida

Sem saber mesmo que rumo irás tomar.”

E ainda:

“Presta atenção, querida,

Embora saiba que estás decidida

Em cada esquina cai um pouco a sua vida

Em pouco tempo não serás mais o que és.”


Nos versos seguintes, o intertexto se revela, quando o sambista diz:


Ouça-me bem, amor, presta atenção,

o mundo é um moinho

quando notares estás à beira do abismo,

abismo que cavaste com teus pés.”


Nos versos acima, os intertextos que alimentam o livro de De Gois, o belo samba de Cartola e a obra imortal de Cervantes, se entrecruzam através da palavra moinho, que nos remete  fonética e inevitavelmente a moído, do texto de De Gois... No caso do texto de De Gois, o moído se refere mesmo à relação que se finda, que se esvai dolorosamente no decorrer do livro, produzindo o sofrido moído de que fala o autor. 

Foto: Thaïs Gualberto

Thaïs Gualberto através da sua Editora Guilhotina ficou encarregada da cuidadosa edição e diagramação do livro, que foi revisado por Audaci Junior, editor do Caderno de Cultura do jornal A União, que também publicou erudito artigo no dia 19 de agosto de 2023 sobre o assunto. Nesse artigo Audaci revela seu profundo conhecimento e intimidade com o mundo dos quadrinhos, buscando nomes e referências pertinentes ao mundo em questão, o que já está sugerido no próprio texto de Samuel, que passeia desde as cartas do tarot até os personagens da mitologia grega, como a Medusa e a Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Todo isso revela o amplo espectro por onde se movimenta o quadrinista, além das referências intrínsecas contidas no texto, amplamente discutidas por Audaci Junior no seu texto publicado.

Capa Definitiva - O mundo é um moído

A caprichada edição teve o apoio da Catarse e está à venda na Miramar Livros ou sua loja virtual clicando aqui.

Boa leitura!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

O fantástico mundo Paulo Moreira, por Marcelo Soares


Uma das coisas que mais ouvi a medida que fui estudando mais sobre escrita e produção de roteiro é a importância de se fazer diálogos de personagens criveis, reais e fugir do artificialismo. Este talvez seja o maior desafio de quem inicia na vida de escrever ficções, apurar a forma que suas criações se expressão trazendo uma naturalidade que dialogue com quem ele é, seu local social, conhecimentos e outras características distintas. No mundo dos quadrinhos, alguém que consegue não só fazer isso quanto utilizar de falas bem características para releituras de figuras já famosas da cultura pop é o paraibano Paulo Moreira.


Quadrinista e designer, seus primeiros trabalhos eram reproduções do que via nas revistas e animações que acompanhava como “Cavaleiros do Zodíaco” e “Dragon Ball”, mas foi com postagens em redes sociais de criações próprias que o lhe deram renome na área. Tirinhas como “Ana, Mosquinha e Lagatixinha” e “Mar Menino” traziam situações bem-humoradas do cotidiano e relacionamentos misturados com nostalgia e regionalismo. Com a série em tiras “Bom dia, Socorro” explorou também o uso da linguagem dos aplicativos de mensagens de celular na batalha entre  Beta e Socorro, presas em um confronto no melhor estilo anime de luta bem brasileiro.


Página da HQ "Bom dia, Socorro"

Não é só o uso de gírias ou expressões nordestinas que se destacam, a espontaneidade que Paulo coloca nas interações dos personagens e esse encaixe em situações inusitadas falam muito sobre o seus sucesso de público. Uma tira que gosto muito e exemplifica bem isso é esta abaixo, onde o protagonista (certa representação do próprio autor) quer devolver um dinheiro emprestado e o amigo não quer receber, ato bem comum de nossa vida, que vai escalonando ao campo do absurdo. 


Página da HQ Mar Menino

Em entrevista ao portal Paraíba Criativa falando sobre sua HQ, Operação Dragão Negro, Paulo destaca que levou para sua produção além do jeito de falar, um pouco da personalidade dele e dos amigos e podemos ver essa característica bem nesta tirinha. O “Ei, pô, teu dinheiro daquele dia” sai muito normal como início de um papo entre amigos e uma ótima abertura para um roteiro. O “oxe, relaxa, precisa não” trazendo o conflito e o “doido, vou botar no seu bolso!” o escalonamento para o absurdo. Além do bom traço cartunesco e expressivo que ele faz, temos tudo passado de jeito autêntico, informal sem ser simplório ou “truncado”. Parece simples, mas é mais complicado do que se pensa.


Como disse, isso se destaca ainda mais quando são personagens de marcas/obras muito conhecidas, famosas, que tem suas personalidades, formas de expressão bem marcadas na mente do público. Naturalidade com disrupção/releitura é um movimento que gera não só o humor, acima de tudo a curiosidade.


Não conheço as métricas de visualização, curtidas, compartilhamentos de suas postagens, mas imagino que cada uma que envolva Pokemon, por exemplo, tem grande audiência por esse sorriso que causa do impacto da quebra de expectativas e construção de um cenário bem impensado para aqueles personagens.


Existem no Brasil ótimos e ótimas quadrinistas que escrevem diálogos muito bons, claro, porém, me dá uma profunda felicidade de ver um paraibano como eu fazendo isso com constância, qualidade e retorno de leitores. Fica aí a dica para estudiosos de um bom objeto de estudo!


Se quiser conferir mais do trabalho do Paulo, segue ele no Instagram: @paulomoreirap.






quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

A luta feminina em Bordados de Marjane Satrapi, por Vitória Lima


Desde que me entendo por gente que leio quadrinhos. Primeiro foram as revistinhas infantis, como Pato Donald, Mickey, Pinduca, Bolinha, Luluzinha e tudo o mais que havia disponível para o público infantil, dentre vários outros que meu pai nos trazia de suas viagens e os que acompanhávamos através dos jornais como o Correio da Manhã, que meu pai assinava. Havia também as adaptações para HQ dos clássicos da literatura, que começavam a se popularizar.

Hoje, os quadrinhos são mais uma forma, um suporte de leitura, de divertimento e ilustração para adultos, jovens adultos e crianças, através de uma gama de livros e adaptações que foram surgindo. O mais recente que me caiu sob os olhos foi “Bordados” (Companhia das Letras, 2010), de Marjane Satrapi, autora iraniana que já conhecia através da obra “Persépolis”, tanto em HQ como em filme, mas esse “Bordados” foi uma surpresa que me encantou sobremaneira. Através dele nos familiarizamos melhor com a organização familiar que permeia a sociedade iraniana, que privilegia o homem e submete a mulher a uma rotina limitante, que a reduz a um ser quase infantilizado e irracional. Isso tudo está em “Bordados”, onde as mulheres só tem um objetivo na vida: casar com um homem rico (que acaba sendo, invariavelmente muito mais velho que elas) e, nessa busca cega, muitas vezes se deparam com pretendentes que dizem ser o que na realidade não são. Na condição de oprimidas, encontram mil maneiras de ludibriar o opressor, sejam eles pais, maridos ou outros que assumam esse papel em suas vidas. E os pais das moças, sempre apoiando (de perto ou de longe) as opções das filhas, contanto que elas sejam economicamente proveitosas. Marjane aproveita a oportunidade para denunciar as armadilhas que se escondem por trás das falsas aparências. Paralelamente, criam-se as rodas de amigas, onde a sororidade as compensa pela opressão paterna (e até materna!) prevalente. 

Como todos ao oprimidos, as mulheres se apoiam e se ajudam mutuamente e inventarem formas de se defender das diversas armadilhas machistas que as cercam e ludibriar seus opressores, uma delas sendo a técnica do “bordado” que consiste na reconstituição do hímen, com a qual driblam a exigência obrigatória da virgindade para as mulheres. 

O livro me levou diretamente de volta aos anos 1970, quando estudava nos Estados Unidos. Estudar em outro país, era uma forma que as jovens iranianas encontravam de fugir da vigilância familiar, e quem sabe, casar e viver uma vida mais livre, longe dos costumes arcaicos do país de origem. Isso, para nós latinas era um sonho e para as orientais, no caso, as iranianas, uma oportunidade de fugir dos casamentos arranjados pelos pais, à revelia da noiva.

Crédito foto: Joseph Szabo

Conheci e fiz amizade com uma jovem iraniana nessa situação. Ela, que já estava morando nos Estados Unidos há alguns anos, já concluíra a graduação e estava vislumbrando um mestrado na sua área (não me lembro mais qual era a sua área de estudo). O fato era que ela sempre descobria um novo curso, uma nova forma de postergar o retorno para o Irã e lá submeter-se a uma união com um homem mais velho, escolhido pelos pais, que já se impacientavam com suas postergações e pedidos de desculpa ao “noivo” que haviam escolhido para ela, dentro dos padrões tradicionais: muito mais velho e rico, muito rico. Então tomaram uma decisão e foram eles mesmos resgatar a filha, que adiava tanto a volta para casa. 

Quando a conhecemos, a jovem iraniana estava vivendo esse dilema: voltar para o Irã e casar com o velho rico que os seus pais haviam escolhido para ela, ou permanecer nos Estados Unidos, opção com a qual ela não podia arcar e seus pais lhe deram um xeque-mate: ou ela voltava com eles, ou não arcariam mais com os custos de sua permanência nos Estados Unidos. E foi o que ela fez: voltou para casa, desolada e triste, e nós, suas amigas, não tivemos mais notícias suas.




sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Comic House marca presença em evento e dará descontos em HQs

 

Pessoal, hoje, sexta-feira e amanhã, sábado, estaremos na Feria Florear @feiraflorear que será realizada na frente da @locacomotumadrejpa.

Vai ter muita música, gente animada e vários expositores com suas produções incríveis.

E para colocar mais tempero nessa notícia, estarei levando vários lançamentos das principais editoras de HQs com descontos incríveis.

Salvem as datas e preparem-se para uma turnê que não está no gibi.

Ah! E de quebra, esperamos vocês para batermos um animado bate-papo sobre o mundo dos quadrinhos.

😉Aguardamos sua visita! E não deixe de compartilhar e chamar seus amigos para nos visitar na turnê desse final de semana.