sexta-feira, 24 de julho de 2026

O Maravilhosamente estranho mundo de Steve Gerber

Um breve comentário sobre um dos mais peculiares roteiristas dos comics norte-americanos.


Vira e mexe, quando falamos sobre os grandes nomes dos comics, é comum que terminemos por ouvir quase sempre nomes como os de 
Alan Moore, Frank Miller, Chris Claremont, Grant Morrison, J. M. DeMatteis, Peter David, Stan Lee, e afins. No entanto, existe uma leva de roteirista, em particular nesse período de 1970-1980 que muitas vezes não são tão comentados quanto deveriam. Entre esses nomes, alguns me veem sempre em mente, como Steve Englehart, Alan Grant, Ann Nocenti e, para os fins da coluna de hoje: Steve Gerber (1947-2008).

Nascido como Stephen Ross Gerber, em St.Louis, Missouri, Steve Gerber faz parte daquela primeira geração de fãs de comics que terminaram atuando no meio. Tendo tido seu primeiro fanzine aos 14 anos, iria iniciar sua carreira profissional como redator publicitário, antes de realizar uma transição de carreira com a ajuda de um tal de Roy Thomas, um conhecido seu da época de fanzineiro.
Iniciando seus trabalhos na Marvel em 1972, Gerber seria, a princípio, tanto roteirista quanto editor assistente, ainda que essa segunda atribuição tenha tido vida curta, visto que, segundo o próprio Thomas, o colega era por demais caótico, tendo horários completamente contraproducentes para um editor da indústria.

Mas acredito que isso tenha vindo para melhor.

Longe da editoria, o roteirista viria a trabalhar com uma série de títulos, tendo passagens por vários dos heróis da editora, como Demolidor, Homem de Ferro, Hulk e Namor,  além de super equipes, como no caso dos Defensores. No entanto, diferente de outros nomes da indústria, Gerber parece ter seguido por um caminho bem menos convencional, se associando mais à personagens "estranhos" e secundários - característica esta que irá segui-lo mesmo depois de sua saída da Casa das Ideias - e que sempre teriam um status de segundo escalão, apesar da popularidade que muitos dos seus títulos chegaram a gozar.

O que quero dizer com isso? Veja bem, enquanto nomes como Frank Miller e Alan Moore, começaram na indústria norte-americana com personagens secundários (lembre-se que, antes deles, tanto o Demolidor quanto o Monstro do Pântano estavam prestes a ser cancelados), ambos conseguiram realizar uma migração, promovendo tanto seus títulos, quanto a si mesmos, para um escalão de grandes artistas. O mesmo podemos dizer de Chris Claremont e John Byrne que tiveram um início bem modesto nas páginas do Punho de Ferro antes de serem catapultados pelos X-Men (outro título menor da época). 

Já Steve Gerber, por outro lado, nunca chegou a ter esse tipo de sorte. Mais associado com personagens como o Homem-Coisa, Howard, O Pato, Simons Garth, o Zumbi e até mesmo Daimon Hellstrom, vulgo O Filho de Satã, Gerber se consagrou como um escritor de estranhezas e títulos mais undergrounds dentro do meio mainstream, assumindo uma posição tão "secundária" quanto os personagens de seus títulos. De fato, por mais que tenha alcançado um grande pico de popularidade com a criação de Howard, O Pato - um verdadeiro marco da contracultura dos anos 1970 - o roteirista terminou relegado à uma posição que, hoje, poderíamos considerar como cult, sendo bem menos conhecido e comentado que seus demais contemporâneos.



E isso é uma das maiores perdas que poderíamos ter.

Dono de um estilo próprio, Gerber era conhecido por ser uma espécie de roleta-russa literária, ficando conhecido por "escrever o tipo de história que Steve Gerber queria escrever". Isso, muitas vezes, implicava em um senso de humor que beirava sempre o absurdo, e que muitas vezes cruzava às raias do surrealismo. Um exemplo bem característico disso, se dá com a criação de um personagem secundário em sua passagem pelos Defensores, o antagonista conhecido apenas como Elf with a Gun (algo como o Elfo da arma).



Esse personagem, que iria aparecer como um subplot em várias de suas edições nos Defensores, parte de uma ideia tão absurda quanto seu nome. Por motivos que apenas Steve Gerber sabia, esse personagem foi uma experiência do autor com as narrativas paralelas dos comics, seguindo sempre a mesma premissa: um civil aleatório iria se ver em uma situação aleatória - abrindo a porta para um estranho, indo no banheiro - e, ao abrir a porta, ou ao virar uma esquina iria se deparar com o Elfo em questão, sendo baleado em seguida.

Esses atos de violência sem sentido, por sua vez, nunca vieram a ser explicados, muito menos chegaram a algum ponto, visto que não só o Elfo em questão nunca enfrentou a equipe, como o próprio autor nunca chegou a ter a oportunidade de finalizar sue desenvolvimento, saído do título antes da conclusão dessa narrativa bizarra. De fato, a história final do personagem, que o mostra sendo atropelado no meio de mais uma de suas aventuras homícidas, foi escrito por David Anthony Kraft que, por respeito (e por não saber o que fazer com o Elfo) decidiu oferecer um final para o personagem que fosse tão digno quanto seu surgimento.

Anos depois, quando perguntado sobre qual sua ideia por trás do personagem, Gerber apenas afirmou que o Elfo era:

"(...)uma metáfora para a natureza caótica e inexplicável da existência, essa "fera à espreita" para a qual você passa toda uma vida se preparando apenas para ser surpreendido pelo seu ataque repentino - se é que esse ataque realmente vem.

O absurdo inerente desse personagem revela, além do humor peculiar de seu criador, o modo como ele quase sempre puxava um viés filosófico para sua escrita. Além da aleatoriedade representada pelo Elfo, várias das histórias de Gerber transitam por esse viés reflexivo, seja abordando temas como o sentido e o valor de uma vida, ou mesmo uma discussão sobre a natureza do Mal - e aqui, deixo este belíssimo artigo do CBR onde é discutido o modo como o roteirista utilizou sua passagem pelo Filho de Satã, uma personagem de terceiro escalão da editora, para criar um debate sobre o que é o Mal na sua visão.

Essa natureza questionadora de Gerber não poupou também a sociedade em que vivemos, sendo este o terceiro grande pilar de sua obra. Em histórias como aquelas protagonizadas pelo Homem-Coisa, uma criatura que não fala, mas sente, o roteirista deu plena vazão à questões que ainda hoje discutimos com uma certa frequência, como a questão da violência estrutural, masculinidade tóxica, autoritarismo, assim como questões ambientais, o problema da terceirização da responsabilidade, fanatismo religioso e afins. Caso esteja interessado, fiz um texto um pouco mais longo no meu site abordando uma das histórias de Gerber com o personagem, e você poderá ler mais a respeito por lá.

E o que faltava de fala ao Homem-Coisa, o autor compensou em Howard. Com seu Pato, o roteirista desenvolveu todo um mundo de críticas, indo da política à sociedade de consumo, da banalização da violência à questões de relacionamento, e mesmo sexuais (Howard, um pato, como seu nome leva a crer, se relacionar com uma humana), tudo isso com uma dose de cinismo e acidez que hoje parece estranho ter surgido em meio ao mainstream dessa mídia. Porque, por mais que as críticas sociais tenham se consolidado no decorrer da Era de Bronze (algo entre 1970 até 1985), poucos autores tiveram uma voz tão sua quanto Gerber que, por mais que fosse restrito aos limites do meio, sempre fazia seu melhor para forçá-lo.



E ainda sobre esses exercícios, é bastante curioso notar também como Gerber se sentia à vontade para explorar suas narrativas nos formatos que melhor lhe conviessem, não sendo poucas as vezes que o autor mudou, no meio do caminho, os quadrinhos para prosa, explorando assim as possibilidades que só um texto corrido poderia lhe dar para desenvolver seus conceitos e ideias, antes de retornar para o modo original de sua mídia.

Ainda sobre essas experimentações, é importante salientar que elas não se limitavam apenas à estrutura em si. Inquieto e criativo, Gerber não se contentava apenas com a crítica social e da sátira, mas também experimentava com formatos de histórias, como podemos ver tanto em Howard e no Homem-Coisa, mas também em uma série que nunca pode concluir: Omega, The Unknown. Por mais que se apresentasse e vendesse sob a roupagem de uma típica história de super-heróis, a verdadeira pegada de Omega estava em acompanhar a vida do garoto James-Michael (que de alguma forma se relacionava ao personagem título) em um cenário urbano marcado por questões do cotidiano, como o amadurecimento, solidão e a própria questão da violência urbana, em um tipo de construção que passaria a se tornar comum apenas na década de 1980, originando, eventualmente, selos como o Vertigo, voltados para narrativas mais maduras.



Por "fim", é interessante observar também que Gerber gostava muito de trabalhar com um conceito de universo interligado, criando personagens (muitas vezes secundários) que cruzavam as séries em que ele trabalhava. Um exemplo bem característico disso é a feiticeira atlante Zhered-Na.  Aparecendo pela primeira vez nas aventuras do Homem-Coisa, se tornando, inclusive um dos pontos de maior importância da história na fase do roteirista, ela irá também dar as caras nas aventuras do Filho de Satã. Outro exemplo é o da cigana Madame Swabada, que, fazendo o caminho inverso, apareceu primeiro como uma semi-antagonista nas histórias do Filho de Satã antes de dar o ar de sua graça nos pântanos da Louisiana. Separo esses dois exemplos por serem os personagens de maior destaque, mas a obra de Gerber é recheada por esses intercâmbios e auto-referências, algo que, ainda hoje, é bem pouco comum de se ver nesse meio.

Agora que estamos no final deste artigo, percebam que falei bastante sobre a atuação de Gerber na Marvel, onde o roteirista conseguiu desenvolver e trabalhar por mais tempo. No entanto, isso não quer dizer que ele não tenha sua importância em outras companhias. Por mais que tenha construído boa parte de sua carreira na Casa das Ideias, o roteirista também atuou em outras editoras, como a DC Comics, onde trabalhou com personagens como o Sr. Milagre e o Senhor Destino. Além disso, elaborou, ao lado de Frank Miller, uma proposta para reimaginar a Trindade da editora. A proposta, infelizmente, não foi aceita, mas serviu de base para aquilo que viria a se tornar um dos grandes clássicos dos quadrinhos de super-heróis: o Cavaleiro das Trevas.

Ainda nos quadrinhos, Gerber foi um dos grandes nomes a bater de frente na luta pelo direito de propriedade dos artistas, tendo processado a Marvel pelos direitos de Howard, O Pato. É desse processo que, ao lado de Jack Kirby, outro grande nome dessa batalha, deu vida ao Destroyer Duck, personagem que serviu como base de sátira e paródia de nomes - e de toda a situação - da indústria dos quadrinhos de sua época. O processo, infelizmente, foi decidido em favor da Marvel, ainda que tenha dado fôlego para os movimentos que viriam depois, como o da Image Comics, por exemplo.

Apesar das desavenças jurídicas, Gerber continuou trabalhando no meio, e entre as grandes editoras, até seu falecimento, em 2007 de Fibrose Pulmonar Idiopática.

Além dos quadrinhos, Gerber também atuou como roteirista em séries como Jornada nas Estrelas: A Nova Gerçaão, assim como foi editor em desenhos como Transformers, G.I. Joe, Caverna do Dragão e As Novas Aventuras de Batman e Superman, sendo um profissional tão múltiplo quanto o seu estilo narrativo.

Percebem o porquê desse ser um autor tão fascinante, e o porquê da indignação dele ser tão pouco conhecido por aqui?

Referências:

https://www.planocritico.com/critica-demolidor-por-frank-miller-e-klaus-janson-1979-a-1983/

https://en.wikipedia.org/wiki/Swamp_Thing_(comic_book)

https://www.trashmutant.com/the-reason-is-no-reason-steve-gerbers-elf-with-a-gun.html

https://www.cbr.com/steve-gerber-the-son-of-satan-and-evil/

https://www.galeriadameianoite.com.br/post/analisando-quadrinhos-homem-coisa-edição-gigante-4-1975

https://nikdirga.com/2021/01/30/the-mystery-is-the-point-omega-the-unknown/

https://50yearoldcomics.com/2025/12/27/omega-the-unknown-1-march-1976/





quinta-feira, 18 de junho de 2026

A Primeira Dama da Bonelli, Júlia Kendall - por Lucas Freitas



Vamos começar o texto de hoje com um pequeno teste. Pense no nome
Bonelli e me diga qual foi o primeiro título que lhe veio à mente.

Se você é brasileiro, e teve um histórico de visitar bancas ou comic shops, acredito que não seja de todo impossível que o primeiro nome em que você pensou foi o do ranger Tex Willer. Em seguida, caso prossigamos com esse exercício, imagino que outros nomes prováveis sejam aqueles de outros títulos de western, como Mágico Vento (Ned Ellis) ou Zagor, o que ressalta o quão forte é a relação da editora italiana com esse gênero.

Ainda assim, resumir a Bonelli a uma editora focada em westerns é perder um grande ponto.

Ao longo de seus mais de oitenta anos de história, a editora, que recebeu seu nome final em 1990 como uma homenagem ao lendário roteirista e editor Sérgio Bonelli (1932-2011), trabalha com uma série de gêneros diferentes, como o terror, suspense policial e ficção científica – isso quando não opta por misturar esses gêneros. É dessa seara de produções que sairão nomes como Martin Mystére, o detetive do impossível, Nathan Never, o policial do futuro, Dylan Dog, o detetive do Pesadelo e Harlan Draka, meio vampiro protagonista da série Dampyr.

E, em meio à essa célebre galeria de personagens, existe uma que, pelo menos para mim, se sobressaí. Seu nome? Júlia Kendall.

Arte que apresenta a protagonista da série, Júlia Kendall, em primeiro plano com um sobretudo vermelho

Uma das primeiras – se não a primeira¹ – personagem da editora a estrear em um título próprio, a criminóloga de Garden City foi criada em 1998 pelo quadrinista Giancarlo Berardi (co-criador de Ken Parker) a pedido do próprio Sérgio Bonelli. E esse não foi um trabalho fácil. Como sempre menciona nos textos de abertura das edições da revista, para construir uma obra bastante verossímil, Giancarlo mergulhou fundo no mundo da sua personagem. De fato, como bem sumarizado pelo Luiz Santiago, do Plano Crítico:

“ (...) [Giancarlo] estudou criminologia e medicina legal no Instituto de Gênova, frequentou cursos de psicologia, sociologia, psiquiatria, psicanálise, balística e também mergulhou na leitura de romances policiais e estudou o processo de escrita no estilo de crônicas jornalísticas e relatórios jurídicos e policias, além de roteiros de cinema, fazendo seu recorte pessoal para os gêneros noir, suspense e documentário, tudo isso para chegar a uma composição bastante satisfatória para o gênero que de fato se enquadra a obra, o giallo (apesar de se passar nos EUA).”

Esse repertório se faz perceber no modo como as histórias de Júlia são construídas. Pois, enquanto boa parte dos romances e narrativas policiais trazem o foco para o crime propriamente dito, aqui, somos apresentados à uma visão mais global de todo o processo. Sendo uma professora universitária e prestando consultoria à polícia de sua cidade, a criminóloga traz consigo uma bagagem que permite ao autor a exploração de conceitos e temas que vão enriquecendo às histórias. De fato, esse é o tipo de leitura onde não é de todo impossível que o leitor se veja pego em um debate sobre sociologia e psicologia enquanto a investigação acontece, seja como uma forma de contextualizar e apresentar o ocorrido, seja para atiçar o debate entre obra e leitor, trazendo perspectivas pouco comuns para os quadrinhos e o gênero.

Mais do que acrescentar um texto mais denso à história, essas inserções fazem um trabalho excelente ao multifacetar as histórias de Júlia, que jamais se reduzem à dinâmica simplista do “bem vs. mal”. Existem, é claro, criminosos e, dentre eles, alguns responsáveis por crimes terríveis, e isso nunca entre em debate. Em nenhum momento, porém, a história se presta à reduzi-los ou trata-los como algo que não sejam humanos. São pessoas perigosas, é verdade, e responsáveis por seus atos, mas em nenhum momento uma história do universo de Júlia os reduz à simples condição de monstros, se preocupando em trazer uma contextualização e uma apresentação que, longe de justifica-los, nos fornece uma visão clara, e muitas vezes desconfortável, do abismo terrível que é o coração humano.


Não que essa visão seja compartilhada de modo unânime na série, pois, assim como acontece na vida real, personagens diferentes terão ideias e pontos de vista diferentes. Um exemplo claro disso é o tenente Webb, um dos principais contatos de Júlia na força policial, e personagem recorrente nas suas histórias. Diferente da criminóloga, o policial possuí uma visão bem mais estreita sobre a dinâmica de crime e castigo, o que muitas vezes o colocará em choque com sua colega de trabalho. Ainda assim, por mais que se estranhem e discutam bastante, existe, entre os dois, um respeito e uma admiração profissional que muitas vezes faz falta em nosso mundo.

Um outro aspecto bem interessante das histórias de Júlia, e que de novo é produto do trabalho de estudo e pesquisa de Giancarlo, é o modo como a psicanálise atua como um alicerce bem importante para a série. Bastante atrelada ao mundo onírico, Júlia é uma personagem cujos processos e dilemas, sejam eles seus próprios traumas ou a resolução dos crimes, podem ser acompanhados através das representações que seu inconsciente lhe oferece todas as noites por meio de sonhos (ou pesadelos). Esse mecanismo permite que não só o leitor conhece um pouco melhor o cenário interno da protagonista, como também ajuda, qual um Watson improvável, a embasar o processo dedutivo da história.

Isso, claro, sem mencionar a carga de lirismo que os sonhos de Júlia garantem à história.



Um outro elemento bastante interessante das histórias de nossa criminóloga favorita, e mais uma vez prova o cuidado que suas histórias recebem, está no fato dos dilemas com que ela precisa lidar. Forte e independente, Júlia precisa lidar com o fato de ser uma mulher em campos majoritariamente dominados por homens. Melhor ainda, talvez, seria dizer que ela também precisa lidar com o fato de ser mulher, tendo que lidar com questões bem específicas do mundo feminino, como o peso da passagem do tempo (uma vez que, diferente dos comics, a personagem envelhece ao longo das histórias), a solidão feminina, a pressão compulsória que a sociedade coloca sobre relacionamentos, a culpa por se dedicar a uma carreira e não uma “vida tradicional”, tudo isso ao mesmo tempo e que precisa lidar com seus próprios traumas e relacionamentos conflituosos.

E é isso o que torna Júlia uma série tão fascinante.

Com personagens altamente complexos e uma narrativa que consegue ser bem densa e cerebral, mas sem nunca chegar a ser impenetrável, Júlia Kendall é de longe um dos melhores títulos em publicação atualmente, e acredito que não conseguiria abordar em um único texto essa maravilha narrativa. Por isso, farei melhor e, encerrando o texto por aqui, vou te entregar um par de luvas e afastar o cordão de isolamento, para que você possa também adentrar nesse mundo sombrio e perigoso, mas riquíssimo.

Garanto que vai valer a pena.

Publicada no Brasil pela Mythos desde 2004², Júlia Kendall segue a ser publicada de modo praticamente ininterrupto, ganhando, inclusive, coleções Omnibus e especiais. Dentre eles, o relançamento da série, em formato mais próximo do original, que você pode conferir  aqui na própria Comic House


P.S: Como se tudo isso ainda não fosse suficiente, existe ainda um outro elemento bastante interessante em Júlia, que é a estreita relação que a mesma possuí com o cinema. Além de referenciar filmes em suas histórias, os próprios personagens são também referências, visto que Júlia é desenhada de modo a lembrar a atriz Audrey Hepburn, por exemplo, enquanto outros personagens de seu elenco, como o supracitado Alan Webb, são baseado no ator John Malkovitch, e sua empregada, Emilly Jones, toma por base a atriz Whoopi Goldberg.

1 - Faço esse parênteses porque, três anos antes de Júlia, Legs Weaver já estreava em um título próprio. No entanto, diferente da nossa criminóloga favorita, Legs iniciou sua carreira em 1991, sendo uma coadjuvante na série de Nathan Never.

2 – Aqui cabe uma curiosidade: originalmente, a publicação da revista era apresentada apenas como Júlia. No entanto, devido à problemas com os romances de bolso de mesmo nome, a editora mudou o nome da revista para J. Kendall: Aventuras de uma Criminóloga, nome que usa até hoje.

Referências:

 

Wikipedia -  https://pt.wikipedia.org/wiki/Julia_(Sergio_Bonelli_Editore)

Plano Crítico –  https://www.planocritico.com/especial-julia-kendall-aventuras-de-uma-criminologa/





 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Paraibanos são indicados a um dos mais importantes prêmios brasileiros das HQs .


 

A comissão organizadora do Troféu Angelo Agostini divulgou a lista de indicados à sua 42ª edição, contemplando 12 categorias regulares e três especiais. 

E entre os selecionados a presença dos paraibanos, Manassés Filho, empreendedor na Comic House e produtor cultural, indicado na categoria Jayme Cortez com a Top! Top! Convenção Paraibana de Quadrinhos e o quadrinista, Paulo Moreira, com seis indicações, quatro delas com a HQ Boca de Siri (Melhor quadrinho, Melhor Desenhista/ Roteirista, Letrista e Capista) e as outras duas nas categoria Desenhista Humor Gráfico e Quadrinho Digital.

A escolha dos vencedores será feita por voto popular no site oficial do prêmio ( https://angeloagostini.com.br/ ), com votação aberta entre os dias 22 de abril e 25 de maio. O resultado está previsto para sair no dia 29 de maio, em live transmitida no canal do YouTube do Troféu Angelo Agostini (https://www.youtube.com/@angelo_agostini). 

Enquanto que a cerimônia de entrega do prêmio irá ocorrer no dia 28 de junho, na Casa de Cultura do Butantã, onde  serão entregues consecutivamente os troféus das 41ª e 42ª edições do Troféu Ângelo Agostini. 

Ah! E não de realizar seu voto e contribuir para a Top! Top! e Paulo Moreira tragam seus troféus para a Paraíba.

Cliquem no link https://forms.gle/mtRu3Jdj87UGyM6u6  deixando o seu voto.

Contamos com você, viu? 🌟💓🌟

sábado, 31 de janeiro de 2026

Dia do Quadrinho Nacional é dia de comemoração em dobro na Comic House

 



Ontem, dia 30 de janeiro, foi celebrado o Dia do Quadrinho Nacional, uma data de extrema relevância para a 9ª arte, seus produtores, quadrinistas e entusiastas. Entretanto, para nós da Comic House, essa data também possui um outro significado, diretamente conectado ao início de nossa jornada. Nessa mesma data, no ano de 2003, a Comic House começou sua caminhada com o objetivo não apenas de comercializar HQs, mas de cooperar para a quebra de paradigmas que envolvem os quadrinhos, formar leitores, apresentar e aproximar autores e obras do grande público e, de alguma forma, contribuir para a produção de quadrinhos em nosso estado.

Hoje, chegamos aos 23 anos dessa história e, ao tomarmos o presente como marco inicial e lançarmos um olhar ao passado, ficamos felizes e surpresos com a amplitude de nossas ações. Entre elas, destacam-se a realização de sessões de autógrafos com diversos nomes da HQ local, de outros estados e até de outros países; leituras dramáticas, nas quais os quadrinhos se transformam em belíssimos momentos encenados; animados bate-papos que colocaram autores e público frente a frente em memoráveis trocas de experiências; e, ainda, a criação e realização da Top! Top! Convenção Paraibana de Quadrinhos, que neste ano chega à sua 10ª edição, repleta de pessoas que amam essa arte.

Por fim, agradecemos a todos os autores que fazem parte desta história; ao público, que nos abraça intensamente ao longo de nossa existência; aos projetos que ajudamos a fazer nascer; e aos amigos fiéis que sempre se fazem presentes e colaboram para que o sentimento de amor aos quadrinhos continue se intensificando.

Nossa total reverência a todos vocês que fazem nosso coração pulsar em uma frequência que não está no gibi !



sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Comic House realiza sessão de autógrafos com quadrinistas premiados.



 

A Comic House, livraria especializada em quadrinhos, realizará sua 61ª sessão de autógrafos no próximo sábado (11/10), às 18h, na Av. Nego, 63, Tambaú.

E na celebração deste importante marco, a livraria receberá os José Aguiar e Shiko, que irão autografar suas mais recentes obras. 

O quadrinista, roteirista e editor, o curitibano, José Aguiar, possui uma vasta  produção de HQs concedendo ao leitor uma diversidade de temas e gêneros que lhe conduziu a diversos prêmios, como o Ângelo Agostini e o Troféu HQMix, considerados as importantes premiações para o mundo dos quadrinhos, além de ter sido indicado por duas vezes ao Prêmio Jabuti com as obras Reisetagebuch – Uma Viagem Ilustrada pela Alemanha e a Infância do Brasil

Sua versatilidade também lhe proporcionou a produção de HQs fora de nossa Terra Brasilis, ao desenhar na França a série Ernie Adams e também para a coletânea Un Jour de Mai.

Na Comic House, o quadrinista irá assinar sua mais recente obra, a badalada adaptação para os quadrinhos do livro Vidas Secas, do renomado escritor nordestino, Graciliano Ramos, que apresenta a jornada de uma família de retirantes sertanejos que vivem em clima de desigualdade e perdas em meio a seca. A HQ além do profundo texto, também concede uma experiência visual única, onde José Aguiar inspira-se no obra Os Retirantes de Portinari, o expressionismo porém sem as sombras do estilo europeu, mas trazendo o tropical de nosso país para retratar as penúrias de um cenário onde impera o assustador e em muitas vezes a desesperança se faz presente como companheira de caminhada.

Mas este grande momento, não fica apenas por aí, o autor, também irá autografar,
Debaixo D’água, obra que como Vidas Secas, também foi produzida com sua esposa, Fernanda Baukat, porém esta é autobiográfica, onde o casal de autores expõem as vitórias e a beleza inerentes à maternidade, encorajando uma reflexão sobre a essencialidade do respeito à preferência das gestantes e a promoção de um suporte humano e empático. E fechando a trinca de títulos a serem assinados, temos o premiado, A Infância do Brasil, o título foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2018, vencedora dos prêmios LeBlanc e Minuano de Literatura, e do Troféu HQMIX, e traz as transformações de nossa nação pelos olhos das crianças, onde a inocência e os cenários de desigualdade coexistem implicando em uma ampliação de nossa  percepção da realidade que existiu, mas que metamorfoseada ainda se faz presente em nosso país.



Enquanto isso, o paraibano, Shiko, irá assinar o último volume da épica  emblemática saga da cangaceira Carniça vol 4 (volumes anteriores estarão disponíveis) e a HQ Eu Te Amo, Porra!







terça-feira, 26 de agosto de 2025

Serão os Quatro Fantásticos realmente fantásticos no cinema? - por Lucas Freitas




Então, nos últimos meses, tivemos acesso ao filme Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, longa que finalmente vai inserir a Primeira Família do Universo Marvel em seu universo cinematográfico.

E a bem da verdade, já não era sem tempo.


Ainda que não tenha hoje o mesmo peso que outras grandes equipes da editora, como os X-Men (e, mais recentemente,os Vingadores), ou personagens mais populares, como o Homem-Aranha, o Quarteto é uma peça vital para o que foi a revolução dos quadrinhos promovida pela Marvel Comics, ainda na década de 1960, naquela pode ter facilmente sido uma das maiores reviravoltas dos comics.


Afinal, como apresentado por Pedro Hunter, em seu artigo de 2015 para o Omelete:


“O dono da Marvel, Martin Goodman, jogava uma partida de golfe com Jack Liebowitz, um dos donos de sua grande rival, a DC Comics. A falência de sua distribuidora, anos antes, deixara a editora sem um meio de colocar suas revistas à venda e Martin teve de se submeter a um acordo humilhante com a DC, que passou a distribuir as revistas da Marvel, impondo a esta um limite de oito títulos por mês. A outrora poderosa Marvel (ou Atlas ou Timely, nomes que a editora de Goodman usou em alternância até os anos 1960) estava em ruínas e Liebowitz aproveitou a ocasião para tripudiar de Goodman, comentando como a nova série de sua editora, Liga da Justiça, vendia bem, usando o expediente simples de juntar todos os maiores heróis da DC em um título só. Goodman decidiu então aproveitar-se da ideia e fazer um título similar na Marvel.”



A execução de tal ideia coube ao sobrinho de Goodman, Stanley Martin Lieber, mais conhecido como Stan Lee (1922-2018), que recrutou o artista Jack Kirby (1917-1994) que, em novembro de 1961 apresentaram a jornada de um grupo de exploradores que, em seu desejo de vencer os russos na corrida espacial, como era a praxe no período da da Guerra Fria (1947-1991), roubam um foguete para alcançar a Lua. O que encontram, porém, é uma tempestade de raios cósmicos que afetam o grupo de maneira fantástica.




Reed Richards, grande mente por trás da construção da nave e do lançamento, ganha os poderes de elasticidade, podendo esticar e moldar seu corpo ao bel prazer. Sue Storm, noiva de Reed, ganha o incrível poder da invisibilidade e a capacidade de criar campos de força. Johnny, irmão mais novo de Sue, pode se transformar no Tocha Humana (poderes autoexplicativos aqui). E, por fim, temos Benjamin Grimm, melhor amigo de Reed e piloto da nave que, ao ser atingido pelos raios cósmicos, se transforma no Coisa, um humanoide de pedra com força e resistência sobre humana.


Assim reunidos, os quatro decidem usar seus poderes para o bem, auxiliando a humanidade como a equipe que viria a ser conhecida como Quarteto Fantástico, dando início a Era Marvel dos Quadrinhos.



Afinal, foi nas páginas do Quarteto que Lee e Kirby primeiro deram forma ao super-herói moderno, adicionando problemas e conflitos cotidianos no caminho dessas maravilhas contemporâneas. Como exemplo, já nas primeiras 10 edições da revista, acompanhamos as brigas incessantes entre o Coisa e o Tocha Humana, as crises de relacionamento entre Reed e Sue, e até mesmo problemas financeiros, com a equipe tendo que arranjar empregos para poder pagar as contas do Edifício Baxter, dando ao fantástico universo da equipe um ar bastante próximo aos problemas que seus próprios leitores conheciam, em uma fórmula que viria a ser levada à perfeição alguns anos depois, nas aventuras do Homem-Aranha.


É claro que não foram apenas crises e problemas que se apresentaram para a equipe. De fato, momentos felizes foram também apresentados, como o casamento de Sue e Reed Richards, o nascimento de Franklin, o desenvolvimento do relacionamento de Ben Grimm com a escultora Alicia Masters, solidificando ainda mais a dinâmica que, desde o princípio, diferenciou o Quarteto das demais super equipes: a conexão familiar.



Pois esta é uma das grandes verdades por trás da equipe: o Quarteto é, antes de qualquer coisa, uma família. E, como família, atravessaram juntos o melhor e o pior. Dos momentos de felicidade aos de tristeza, a unidade dessa família peculiar permanecerá sempre, se estendo até mesmo para os seus convidados e membros substitutos.


Uma outra grande verdade por trás da equipe, está no fato deles serem exploradores acima de tudo. Sim, antes de heróis que cruzam o mundo em busca de ação, o Quarteto é uma família de exploradores sempre em movimento, explorando não apenas os mistérios da terra, mas também do próprio universo. De fato, tanto é que muito da expansão do Universo Marvel foi proporcionada pelo Quarteto que introduziram as páginas dos quadrinhos seres vindos do longínquo espaço sideral, como os Skrulls, os Kree, Galactus, Surfista Prateado e o Vigia, assim como seres escondidos nos confins da própria Terra, como os Inumanos e o mundo subterrâneo do Toupeira. Isso para não mencionar os espaços interdimensionais, como a Zona Negativa, governada pelo Aniquilador, ou o Microverso e a ameaça do Homem-Psíquico.


Isso, é claro, sem mencionar a criação de um dos maiores antagonistas dos quadrinhos, Victor Von Doom, mais conhecido como Dr. Destino, possível tema para um outro texto.


Assim, tendo em vista o grande papel da equipe no Universo Marvel, seria de se esperar que o mesmo tivesse um papel mais ativo na mídia mas, ainda assim, esse não foi o caso. Ausente durante praticamente todo o desenvolvimento do UCM, a equipe também se viu sumindo das demais mídias, como animações, videogames e até mesmo quadrinhos, em um exílio iniciado em 2015, e que só começou a ser revertido em 2018.


Nesses 3 anos de banimento, no entanto, a Primeira Família da Marvel teve sua participação restrita a revistas de outros grupos e personagens, e, mesmo assim, quase nunca em sua formação completa, com membros da equipe sendo integrados a outras equipes, como no caso do Coisa, que passou a fazer parte dos Guardiões da Galáxia.


O que teria motivado esse movimento de apagamento da equipe? Basicamente ganância corporativa. Segundo rumores de dentro da indústria, uma vez que os direitos do Quarteto se encontravam com a Fox, a publicação de revistas da equipe seriam “propaganda para a concorrência”. Ainda que possa parecer um motivo um tanto quanto inusitado, não parece de todo irreal, como prova a persistência da Marvel em tentar popularizar os inumanos no lugar dos mutantes - estes pertencentes a uma outra franquia de posse da Fox.


Desde o fim desse banimento, porém, o Quarteto tem voltado a marcar presença, tanto nos quadrinhos, em fases extremamente elogiadas, como a de Ryan North, como nos videogames (Marvel Ultimate Alliance 3 e Marvel Rivals) e, agora, finalmente de volta aos cinemas, mas, desta vez, pelas mãos da própria Marvel, em algo que, talvez, possa ser o começo de uma nova Era para o UCM.


E uma Era trazida pela mesma equipe que, lá na década de 1960, abriu as portas daquilo que veio a se tornar o Universo Marvel.