Na coluna deste mês, gostaria de promover uma
pequena viagem. Não para um lugar específico, mas antes, para uma época. Afinal,
hoje gostaria de voltar para algum ponto perdido dos anos 2000 quando, durante
uma festa, tive meu primeiro contato com um jogo que, até então eu não sabia,
iria se tornar um dos meus favoritos.
Esse contato se deu de forma um tanto quanto indireta. Tendo
acesso a um computador, um grupo de amigos me apresentou ao Newgrounds, um dos
sites que, nos idos anos 2000 era um nome de grande relevância no cenário
de jogos e animações em flash . Dentre os jogos e vídeos presentes no site, uma paródia chamou a
minha atenção. Na época, eu ainda não tinha conhecimento o bastante para saber
do que aquilo se tratava, afinal, minhas experiências de videogame se limitavam
ao PS1. No entanto, algo naquela animação, talvez a presença de aliens, talvez
a presença do protagonista de armadura, foi o suficiente para chamar capturar
minha atenção.
A essa altura, imagino que você já deva imaginar de que jogo
estou falando. Mas, para aqueles que ainda não sabem, o jogo em questão se
chamava Halo.
Se você nunca ouviu falar em Halo, bem, em resumo, a série
apresenta a história dos confrontos da humanidade com uma coalização de
espécies alienígenas conhecidas como The Covenant (algo que poderíamos traduzir
como “A Aliança”). O nome, carregado de
uma conotação religiosa, não é dado por acaso, tendo em vista que essa união de
espécies é regida por um sistema teocrático que vê na existência da espécie
humana uma blasfêmia contra seus deuses. Assim, o Covenant dá início a uma
guerra santa genocida contra a humanidade e esta, em menor número e em grande desvantagem
tecnológica, precisa fazer o seu melhor para garantir sua sobrevivência.
É claro que, boa parte dessa história só vai ser explicada
bem depois – e será esse um dos pontos que irei puxar aqui, mas vamos por
partes, sim?
Quando começamos o primeiro jogo, Halo: Combat Evolved, lançado para o X-Box original em novembro de 2001, sabemos apenas que uma das naves da Terra, a Pillar of Autumn, está em fuga, sendo perseguida de perto pelas forças alienígenas. Apesar da velocidade da nave, a mesma é logo abordada ao se aproximar de uma curiosa estrutura anelar que, parecendo um planeta, dá sinais de ser uma construção artificial. Pegos em um novo conflito, o capitão da nave, convoca todas as forças presentes para o combate e, dentre elas, uma arma secreta. Essa arma nada mais é do que um super soldado de armadura – e de poucas palavras - conhecido apenas como Master Chief. Assim, despertado de seu sono criogênico, Chief se junta à resistência na nave, cujos sobreviventes terminam caindo na estrutura anelar que dá nome ao jogo. E será nessa exploração de Halo, ao lado da luta por sobrevivência, que a história irá se desdobrar.
E vai ser exatamente aqui que vou trazer a linha de corte
deste artigo.
Porque veja bem, Halo é o tipo de jogo que dá margem para
várias abordagens. Por exemplo, poderia
falar sobre seus aspectos técnicos, abordando o modo como o jogo trouxe inovações
significativas para a jogabilidade, tanto em termos de controles, quanto
integração de veículos, a IA dos inimigos e aliados ao jogo. Da mesma forma,
poderia escrever um outro artigo falando apenas sobre o modo como Halo
popularizou o multiplayer de jogos de tiro em consoles, um mercado que,
até então, era predominantemente dominado pelos PCs.
No entanto, como escritor, é sobre a narrativa que vou falar
hoje.
Ou, melhor dizendo, sobre uma sensação que me cativou
naquele primeiro momento: o senso de descoberta.
Afinal, quando falo de Halo, e em particular do primeiro jogo, a primeira coisa que me vem à mente é um senso de deslumbramento e descoberta. Por mais que já conhecesse alguns pontos da história devido às paródias do Newgrounds, ver a coisa com meus próprios olhos foi uma experiência completamente diferente.
Com o jogo começando já in media res, vamos descobrindo os detalhes da história à medida em que o jogo vai se revelando para nós. Essa escolha, por mais ousada que possa parecer em um primeiro momento, se revela bastante acertada quando percebemos seu efeito, que é o de colocar o jogador em um estado de curiosidade e confusão semelhantes ao dos próprios personagens em campo, o que gera um tipo de cumplicidade entre ambas as partes.
Da mesma forma, por não saber ao certo o que está acontecendo, a curiosidade acaba virando um outro elemento de imersão. Muito da experiência de se jogar o Combat Evolved vem dessa sensação, de modo que cada nova estrutura alienígena, cada novo cenário, cada pedaço de informação, recebe um peso e uma importância únicas. Talvez, pensamos, ao testemunharmos uma nova construção, esteja ali a peça que nos falta para fecharmos o quebra-cabeça por trás desse jogo. Ou talvez seja aqui, pensa o jogador novamente, enquanto precisa planejar suas ações em meio ao combate feroz com o exército inimigo, que eu possa descobrir um pouco mais sobre os inimigos que estão avançando.
E é assim que a magia de Halo vai se manifestando em seus
jogadores, aliando narrativa e combates ferozes.
Ao final do jogo, depois de termos conhecido as estranhas
estruturas de metal em meio às matas e praias, e nos deslumbrando com suas
paisagens relativamente intocadas, vamos também tomando conhecimento de parte
da história desse universo, de modo que, descobrimos que o Halo foi construído
por uma outra espécie ancestral, conhecida apenas como Forerruners, e que
mais tarde serão apresentados como os deuses do Covenant, que construíram uma série de estruturas pelo
universo com o objetivo de servir como
última linha de defesa contra uma espécie parasita conhecida como Flood.
Não só isso, descobrimos que, como efeito colateral, a ativação dessas armas
pode exterminar a vida como a conhecemos em escala universal.
Assim, uma nova camada de complexidade é adicionada à
história visto que, ao mesmo tempo em que precisamos deter o Flood, precisamos
deter também o Covenant que, por acreditar que a ativação das estruturas irá
levá-los até seus deuses, em um arrebatamento intergaláctico,estão colocando em risco todo o universo.
E, quando essa questão é resolvida, o primeiro jogo termina,
de modo simples e singelo, com Master Chief e Cortana, a IA e braço direito do protagonista, perdidos no
espaço à espera de um resgate que pode, ou não chegar.
Desnecessário dizer que isso não foi, nem de longe, o
suficiente para mim.
Afinal, por mais que tenhamos explorado a estrutura, por
mais que tenhamos sobrevivido ao cataclisma e descoberto uma parte da sua história,
muito desse universo ainda permanecia encoberto, e como público, ansiávamos por
essas respostas. Afinal, tínhamos uma história ali, mas, a bem da
verdade, era apenas uma parte da história como um todo.
Aqui, acredito que Halo se aproxima bastante de uma tendência que me parece bem comum às obras de meados dos anos 1990 e começo dos 2000, que é essa pegada de um universo grandioso, com uma mitologia própria e bem determinada, mas que, para quem vê de fora, sempre deixa um espaço em aberto para uma nova descoberta – e especulações, claro - omitindo informações ao mesmo tempo em que nos apresenta outras.
Essa é uma prática que, acredito eu, alcançou seu ápice com
Lost, em 2004, mas que aparece em outras produções como Matrix e Arquivo
X, por exemplo.
E, sendo bem sincero, essa não é uma escolha de todo ruim.
De fato, ao optar por esse tipo de construção, a produção garante tempo para
que a equipe possa pensar no que iria fazer em seguida, ao mesmo tempo que
garantia uma aura de mistério que fisgava seu público e lhe dava um senso de
realização a cada nova descoberta, uma descoberta que, ao menos na época, seria
prontamente compartilhada e discutida nos fóruns de uma internet que ainda
engatinhava.
E não minto que, pelo menos para mim, muito da força do
primeiro Halo vinha justamente desse mistério.
Ao lado da imponência do cenário, rivalizando com os
combates frenéticos, havia uma história que convidava o jogador a mergulhar
naquele mundo, procurando e tentando descobrir o que havia acontecido nesse
curioso universo do século 26. E acredito que foi com Halo que eu tive, pela
primeira vez, esse senso de maravilhamento e curiosidade com um produto
cultural, assim como uma de minhas experiências ativas com o fenômeno de transmídia.
Já falei sobre esse tema antes, e você pode acompanhar essa
discussão na íntegra aqui. Para hoje, basta saber que transmídia é o processo
no qual uma narrativa surgida em uma determinada mídia – cinema, quadrinhos,
livros – se espraia para uma outra, que expande sua história e universo.
Mercados culturais mais maduros, como o norte-americano e o asiático, fazem
isso com uma certa constância, e o próprio Brasil também teve uma produção bem
consistente nesse âmbito, como já apresentei no outro texto.
O que importa para nós hoje é que Halo foi uma
franquia que soube explorar muito bem a transmídia ao seu favor. De fato, muito
da história posterior – e mesmo da anterior – ao primeiro jogo são apresentados
não em jogos, mas em quadrinhos e livros.
A própria história dos Spartans, os super soldados
dos quais o Master Chief faz parte, por exemplo, é apresentada no livro Fall
of Reach, de Eric Nylund, que apresenta a história da criação dessas
armas e do planeta laboratório Reach, uma das primeiras baixas da guerra santa
do Covenant. Na verdade, é também nesse romance que conhecemos muito da
geopolítica – ou seria cosmopolítica? – do universo de Halo, visto que nele
também somos apresentados ao conceito de que os super soldados foram
originalmente criados como ferramentas de controle de rebeliões dos demais
planetas pertencentes ao Governo Unificado da Terra (UEG, no original), sendo
depois realocados para o combate contra os alienígenas. Esses soldados,
recrutados ainda crianças, passam por uma série de experimentos e
aprimoramentos antes de se tornarem os Spartans, deixando para trás suas
famílias, amizades e até mesmo identidades, em um processo de desumanização que
passou a margem dos jogos.
Outros elementos narrativos, como a expansão do universo e
suas dinâmicas, ou a exploração de outros planetas e da guerra contra o
Covenant, foram explorados bastante nos quadrinhos, gerando séries como a
fraquíssima Insurreição (2007-2009), a até que divertida Blood Lines (2010) e a
obra que deu o ponta pé em tudo, Halo – The Graphic Novel, de 2006 que, dentre
as suas histórias, conta uma ilustrada por ninguém mais, ninguém menos, que
Moebius (1938-2012).
Em comum, todas essas obras procuravam trazer mais pontos
que ajudassem os fãs a conhecer mais desse mundo enquanto os demais jogos da
franquia não vinham para preencher esses pontos. E, eventualmente, eles também
vieram, tanto na série principal, com Halo 2 (2004) que além de dar
prosseguimento à saga de Master Chief também nos permitiu jogar com o Arbítro,
um general do Covenant que, após cair em desgraça, é convocado pelos sacerdotes
para combater o Spartan, e Halo 3 (2007), que encerraram a primeira
parte da série, assim como spin offs como o Halo Wars, ODST e Reach, uma
adaptação do romance e prequel do primeiro jogo.
Contudo, à medida que essas respostas eram dadas, algo
curioso foi acontecendo. Pois, quanto mais informações tínhamos sobre o
universo de Halo, quanto mais conhecimento conquistávamos sobre a obra, mais a
aura de mistério que o envolvia ia se perdendo, e o que restou foi, ironicamente,
mais um jogo de tiro.
Assim, por mais que esses jogos e produtos tenham conseguido
alimentar a fome de informação deste pobre fã, nenhum deles conseguiu trazer de
volta aquele senso de descoberta e deslumbramento que Combat Evolved me
apresentou, mesmo naquelas primeiras paródias do tempo do Newgrounds, provando
que, muitas vezes, são as perguntas e questionamentos, e não as respostas, as
partes mais interessantes de uma história.







