terça-feira, 25 de agosto de 2026

O Prazer da descoberta em Halo: Combat Evolved


Montagem de apresentação do jogo Halo: Combat Evolved, apresentando o protagonista da série, Master Chief, assim como alguns dos veículos que podem ser utilizados ao longo do jogo

Na coluna deste mês, gostaria de promover uma pequena viagem. Não para um lugar específico, mas antes, para uma época. Afinal, hoje gostaria de voltar para algum ponto perdido dos anos 2000 quando, durante uma festa, tive meu primeiro contato com um jogo que, até então eu não sabia, iria se tornar um dos meus favoritos.

Esse contato se deu de forma um tanto quanto indireta. Tendo acesso a um computador, um grupo de amigos me apresentou ao Newgrounds, um dos sites que, nos idos anos 2000 era um nome de grande relevância no cenário de jogos e animações em flash . Dentre os jogos e vídeos presentes no site, uma paródia chamou a minha atenção. Na época, eu ainda não tinha conhecimento o bastante para saber do que aquilo se tratava, afinal, minhas experiências de videogame se limitavam ao PS1. No entanto, algo naquela animação, talvez a presença de aliens, talvez a presença do protagonista de armadura, foi o suficiente para chamar capturar minha atenção.

Logo do site Newgrounds durante os anos 2000, representando seu mascote, um soldado montado em um tanque de guerra


A essa altura, imagino que você já deva imaginar de que jogo estou falando. Mas, para aqueles que ainda não sabem, o jogo em questão se chamava Halo.

Se você nunca ouviu falar em Halo, bem, em resumo, a série apresenta a história dos confrontos da humanidade com uma coalização de espécies alienígenas conhecidas como The Covenant (algo que poderíamos traduzir como “A Aliança”).  O nome, carregado de uma conotação religiosa, não é dado por acaso, tendo em vista que essa união de espécies é regida por um sistema teocrático que vê na existência da espécie humana uma blasfêmia contra seus deuses. Assim, o Covenant dá início a uma guerra santa genocida contra a humanidade e esta, em menor número e em grande desvantagem tecnológica, precisa fazer o seu melhor para garantir sua sobrevivência.

É claro que, boa parte dessa história só vai ser explicada bem depois – e será esse um dos pontos que irei puxar aqui, mas vamos por partes, sim?

Arte da capa do jogo Halo: Combat Evolved, apresentando o protagonista, Master Chief, de arma em punho, avançando para o combate ao lado de outros soldados. Ao fundo, a estrutura que dá nome ao jogo

Quando começamos o primeiro jogo, Halo: Combat Evolved, lançado para o X-Box original em novembro de 2001, sabemos apenas que uma das naves da Terra, a Pillar of Autumn, está em fuga, sendo perseguida de perto pelas forças alienígenas. Apesar da velocidade da nave, a mesma é logo abordada ao se aproximar de uma curiosa estrutura anelar que, parecendo um planeta, dá sinais de ser uma construção artificial. Pegos em um novo conflito, o capitão da nave, convoca todas as forças presentes para o combate e, dentre elas, uma arma secreta. Essa arma nada mais é do que um super soldado de armadura – e de poucas palavras - conhecido apenas como Master Chief. Assim, despertado de seu sono criogênico, Chief se junta à resistência na nave, cujos sobreviventes terminam caindo na estrutura anelar que dá nome ao jogo. E será nessa exploração de Halo, ao lado da luta por sobrevivência, que a história irá se desdobrar.

E vai ser exatamente aqui que vou trazer a linha de corte deste artigo.

Porque veja bem, Halo é o tipo de jogo que dá margem para várias abordagens.  Por exemplo, poderia falar sobre seus aspectos técnicos, abordando o modo como o jogo trouxe inovações significativas para a jogabilidade, tanto em termos de controles, quanto integração de veículos, a IA dos inimigos e aliados ao jogo. Da mesma forma, poderia escrever um outro artigo falando apenas sobre o modo como Halo popularizou o multiplayer de jogos de tiro em consoles, um mercado que, até então, era predominantemente dominado pelos PCs.

No entanto, como escritor, é sobre a narrativa que vou falar hoje.

Ou, melhor dizendo, sobre uma sensação que me cativou naquele primeiro momento: o senso de descoberta.

Afinal, quando falo de Halo, e em particular do primeiro jogo, a primeira coisa que me vem à mente é um senso de deslumbramento e descoberta. Por mais que já conhecesse alguns pontos da história devido às paródias do Newgrounds, ver a coisa com meus próprios olhos foi uma experiência completamente diferente.

Com o jogo começando já in media res, vamos descobrindo os detalhes da história à medida em que o jogo vai se revelando para nós. Essa escolha, por mais ousada que possa parecer em um primeiro momento, se revela bastante acertada quando percebemos seu efeito, que é o de colocar o jogador em um estado de curiosidade e confusão semelhantes ao dos próprios personagens em campo, o que gera um tipo de cumplicidade entre ambas as partes.

Estrutura metálica presente em Halo, cuja origem e função nunca chegamos a descobrir. A tecnologia futurista entra em contraste com a natureza ao seu redor

Da mesma forma, por não saber ao certo o que está acontecendo, a curiosidade acaba virando um outro elemento de imersão. Muito da experiência de se jogar o Combat Evolved vem dessa sensação, de modo que cada nova estrutura alienígena, cada novo cenário, cada pedaço de informação, recebe um peso e uma importância únicas. Talvez, pensamos, ao testemunharmos uma nova construção, esteja ali a peça que nos falta para fecharmos o quebra-cabeça por trás desse jogo. Ou talvez seja aqui, pensa o jogador novamente, enquanto precisa planejar suas ações em meio ao combate feroz com o exército inimigo, que eu possa descobrir um pouco mais sobre os inimigos que estão avançando.

E é assim que a magia de Halo vai se manifestando em seus jogadores, aliando narrativa e combates ferozes.

Ao final do jogo, depois de termos conhecido as estranhas estruturas de metal em meio às matas e praias, e nos deslumbrando com suas paisagens relativamente intocadas, vamos também tomando conhecimento de parte da história desse universo, de modo que, descobrimos que o Halo foi construído por uma outra espécie ancestral, conhecida apenas como Forerruners, e que mais tarde serão apresentados como os deuses do Covenant, que  construíram uma série de estruturas pelo universo  com o objetivo de servir como última linha de defesa contra uma espécie parasita conhecida como Flood. Não só isso, descobrimos que, como efeito colateral, a ativação dessas armas pode exterminar a vida como a conhecemos em escala universal.

Assim, uma nova camada de complexidade é adicionada à história visto que, ao mesmo tempo em que precisamos deter o Flood, precisamos deter também o Covenant que, por acreditar que a ativação das estruturas irá levá-los até seus deuses, em um arrebatamento intergaláctico,estão colocando em risco todo o universo.

E, quando essa questão é resolvida, o primeiro jogo termina, de modo simples e singelo, com Master Chief e Cortana, a IA e braço direito do protagonista, perdidos no espaço à espera de um resgate que pode, ou não chegar.

Desnecessário dizer que isso não foi, nem de longe, o suficiente para mim.

Afinal, por mais que tenhamos explorado a estrutura, por mais que tenhamos sobrevivido ao cataclisma e descoberto uma parte da sua história, muito desse universo ainda permanecia encoberto, e como público, ansiávamos por essas respostas. Afinal, tínhamos uma história ali, mas, a bem da verdade, era apenas uma parte da história como um todo.


Master Chief, de rifle em punho, avança junto com um pelotão de soldados

Aqui, acredito que Halo se aproxima bastante de uma tendência que me parece bem comum às obras de meados dos anos 1990 e começo dos 2000, que é essa pegada de um universo grandioso, com uma mitologia própria e bem determinada, mas que, para quem vê de fora, sempre deixa um espaço em aberto para uma nova descoberta – e especulações, claro - omitindo informações ao mesmo tempo em que nos apresenta outras.

Essa é uma prática que, acredito eu, alcançou seu ápice com Lost, em 2004, mas que aparece em outras produções como Matrix e Arquivo X, por exemplo.

E, sendo bem sincero, essa não é uma escolha de todo ruim. De fato, ao optar por esse tipo de construção, a produção garante tempo para que a equipe possa pensar no que iria fazer em seguida, ao mesmo tempo que garantia uma aura de mistério que fisgava seu público e lhe dava um senso de realização a cada nova descoberta, uma descoberta que, ao menos na época, seria prontamente compartilhada e discutida nos fóruns de uma internet que ainda engatinhava.

E não minto que, pelo menos para mim, muito da força do primeiro Halo vinha justamente desse mistério.

Ao lado da imponência do cenário, rivalizando com os combates frenéticos, havia uma história que convidava o jogador a mergulhar naquele mundo, procurando e tentando descobrir o que havia acontecido nesse curioso universo do século 26. E acredito que foi com Halo que eu tive, pela primeira vez, esse senso de maravilhamento e curiosidade com um produto cultural, assim como uma de minhas experiências ativas com o fenômeno de transmídia.

Já falei sobre esse tema antes, e você pode acompanhar essa discussão na íntegra aqui. Para hoje, basta saber que transmídia é o processo no qual uma narrativa surgida em uma determinada mídia – cinema, quadrinhos, livros – se espraia para uma outra, que expande sua história e universo. Mercados culturais mais maduros, como o norte-americano e o asiático, fazem isso com uma certa constância, e o próprio Brasil também teve uma produção bem consistente nesse âmbito, como já apresentei no outro texto.

O que importa para nós hoje é que Halo foi uma franquia que soube explorar muito bem a transmídia ao seu favor. De fato, muito da história posterior – e mesmo da anterior – ao primeiro jogo são apresentados não em jogos, mas em quadrinhos e livros.

Capa do livro Halo: The Fall of Reach

A própria história dos Spartans, os super soldados dos quais o Master Chief faz parte, por exemplo, é apresentada no livro Fall of Reach, de Eric Nylund, que apresenta a história da criação dessas armas e do planeta laboratório Reach, uma das primeiras baixas da guerra santa do Covenant. Na verdade, é também nesse romance que conhecemos muito da geopolítica – ou seria cosmopolítica? – do universo de Halo, visto que nele também somos apresentados ao conceito de que os super soldados foram originalmente criados como ferramentas de controle de rebeliões dos demais planetas pertencentes ao Governo Unificado da Terra (UEG, no original), sendo depois realocados para o combate contra os alienígenas. Esses soldados, recrutados ainda crianças, passam por uma série de experimentos e aprimoramentos antes de se tornarem os Spartans, deixando para trás suas famílias, amizades e até mesmo identidades, em um processo de desumanização que passou a margem dos jogos.

Outros elementos narrativos, como a expansão do universo e suas dinâmicas, ou a exploração de outros planetas e da guerra contra o Covenant, foram explorados bastante nos quadrinhos, gerando séries como a fraquíssima Insurreição (2007-2009), a até que divertida Blood Lines (2010) e a obra que deu o ponta pé em tudo, Halo – The Graphic Novel, de 2006 que, dentre as suas histórias, conta uma ilustrada por ninguém mais, ninguém menos, que Moebius (1938-2012).

Em comum, todas essas obras procuravam trazer mais pontos que ajudassem os fãs a conhecer mais desse mundo enquanto os demais jogos da franquia não vinham para preencher esses pontos. E, eventualmente, eles também vieram, tanto na série principal, com Halo 2 (2004) que além de dar prosseguimento à saga de Master Chief também nos permitiu jogar com o Arbítro, um general do Covenant que, após cair em desgraça, é convocado pelos sacerdotes para combater o Spartan, e Halo 3 (2007), que encerraram a primeira parte da série, assim como spin offs como o Halo Wars, ODST e Reach, uma adaptação do romance e prequel do primeiro jogo.

Contudo, à medida que essas respostas eram dadas, algo curioso foi acontecendo. Pois, quanto mais informações tínhamos sobre o universo de Halo, quanto mais conhecimento conquistávamos sobre a obra, mais a aura de mistério que o envolvia ia se perdendo, e o que restou foi, ironicamente, mais um jogo de tiro.

Assim, por mais que esses jogos e produtos tenham conseguido alimentar a fome de informação deste pobre fã, nenhum deles conseguiu trazer de volta aquele senso de descoberta e deslumbramento que Combat Evolved me apresentou, mesmo naquelas primeiras paródias do tempo do Newgrounds, provando que, muitas vezes, são as perguntas e questionamentos, e não as respostas, as partes mais interessantes de uma história.