Um breve comentário sobre um dos mais peculiares roteiristas dos comics norte-americanos.
Nascido como Stephen Ross Gerber, em St.Louis, Missouri, Steve Gerber faz parte daquela primeira geração de fãs de comics que terminaram atuando no meio. Tendo tido seu primeiro fanzine aos 14 anos, iria iniciar sua carreira profissional como redator publicitário, antes de realizar uma transição de carreira com a ajuda de um tal de Roy Thomas, um conhecido seu da época de fanzineiro.
Iniciando seus trabalhos na Marvel em 1972, Gerber seria, a princípio, tanto roteirista quanto editor assistente, ainda que essa segunda atribuição tenha tido vida curta, visto que, segundo o próprio Thomas, o colega era por demais caótico, tendo horários completamente contraproducentes para um editor da indústria.
Mas acredito que isso tenha vindo para melhor.
Longe da editoria, o roteirista viria a trabalhar com uma série de títulos, tendo passagens por vários dos heróis da editora, como Demolidor, Homem de Ferro, Hulk e Namor, além de super equipes, como no caso dos Defensores. No entanto, diferente de outros nomes da indústria, Gerber parece ter seguido por um caminho bem menos convencional, se associando mais à personagens "estranhos" e secundários - característica esta que irá segui-lo mesmo depois de sua saída da Casa das Ideias - e que sempre teriam um status de segundo escalão, apesar da popularidade que muitos dos seus títulos chegaram a gozar.
O que quero dizer com isso? Veja bem, enquanto nomes como Frank Miller e Alan Moore, começaram na indústria norte-americana com personagens secundários (lembre-se que, antes deles, tanto o Demolidor quanto o Monstro do Pântano estavam prestes a ser cancelados), ambos conseguiram realizar uma migração, promovendo tanto seus títulos, quanto a si mesmos, para um escalão de grandes artistas. O mesmo podemos dizer de Chris Claremont e John Byrne que tiveram um início bem modesto nas páginas do Punho de Ferro antes de serem catapultados pelos X-Men (outro título menor da época).
Já Steve Gerber, por outro lado, nunca chegou a ter esse tipo de sorte. Mais associado com personagens como o Homem-Coisa, Howard, O Pato, Simons Garth, o Zumbi e até mesmo Daimon Hellstrom, vulgo O Filho de Satã, Gerber se consagrou como um escritor de estranhezas e títulos mais undergrounds dentro do meio mainstream, assumindo uma posição tão "secundária" quanto os personagens de seus títulos. De fato, por mais que tenha alcançado um grande pico de popularidade com a criação de Howard, O Pato - um verdadeiro marco da contracultura dos anos 1970 - o roteirista terminou relegado à uma posição que, hoje, poderíamos considerar como cult, sendo bem menos conhecido e comentado que seus demais contemporâneos.
E isso é uma das maiores perdas que poderíamos ter.
Dono de um estilo próprio, Gerber era conhecido por ser uma espécie de roleta-russa literária, ficando conhecido por "escrever o tipo de história que Steve Gerber queria escrever". Isso, muitas vezes, implicava em um senso de humor que beirava sempre o absurdo, e que muitas vezes cruzava às raias do surrealismo. Um exemplo bem característico disso, se dá com a criação de um personagem secundário em sua passagem pelos Defensores, o antagonista conhecido apenas como Elf with a Gun (algo como o Elfo da arma).
Esse personagem, que iria aparecer como um subplot em várias de suas edições nos Defensores, parte de uma ideia tão absurda quanto seu nome. Por motivos que apenas Steve Gerber sabia, esse personagem foi uma experiência do autor com as narrativas paralelas dos comics, seguindo sempre a mesma premissa: um civil aleatório iria se ver em uma situação aleatória - abrindo a porta para um estranho, indo no banheiro - e, ao abrir a porta, ou ao virar uma esquina iria se deparar com o Elfo em questão, sendo baleado em seguida.
Esses atos de violência sem sentido, por sua vez, nunca vieram a ser explicados, muito menos chegaram a algum ponto, visto que não só o Elfo em questão nunca enfrentou a equipe, como o próprio autor nunca chegou a ter a oportunidade de finalizar sue desenvolvimento, saído do título antes da conclusão dessa narrativa bizarra. De fato, a história final do personagem, que o mostra sendo atropelado no meio de mais uma de suas aventuras homícidas, foi escrito por David Anthony Kraft que, por respeito (e por não saber o que fazer com o Elfo) decidiu oferecer um final para o personagem que fosse tão digno quanto seu surgimento.
Anos depois, quando perguntado sobre qual sua ideia por trás do personagem, Gerber apenas afirmou que o Elfo era:
"(...)uma metáfora para a natureza caótica e inexplicável da existência, essa "fera à espreita" para a qual você passa toda uma vida se preparando apenas para ser surpreendido pelo seu ataque repentino - se é que esse ataque realmente vem.
O absurdo inerente desse personagem revela, além do humor peculiar de seu criador, o modo como ele quase sempre puxava um viés filosófico para sua escrita. Além da aleatoriedade representada pelo Elfo, várias das histórias de Gerber transitam por esse viés reflexivo, seja abordando temas como o sentido e o valor de uma vida, ou mesmo uma discussão sobre a natureza do Mal - e aqui, deixo este belíssimo artigo do CBR onde é discutido o modo como o roteirista utilizou sua passagem pelo Filho de Satã, uma personagem de terceiro escalão da editora, para criar um debate sobre o que é o Mal na sua visão.
Essa natureza questionadora de Gerber não poupou também a sociedade em que vivemos, sendo este o terceiro grande pilar de sua obra. Em histórias como aquelas protagonizadas pelo Homem-Coisa, uma criatura que não fala, mas sente, o roteirista deu plena vazão à questões que ainda hoje discutimos com uma certa frequência, como a questão da violência estrutural, masculinidade tóxica, autoritarismo, assim como questões ambientais, o problema da terceirização da responsabilidade, fanatismo religioso e afins. Caso esteja interessado, fiz um texto um pouco mais longo no meu site abordando uma das histórias de Gerber com o personagem, e você poderá ler mais a respeito por lá.
E o que faltava de fala ao Homem-Coisa, o autor compensou em Howard. Com seu Pato, o roteirista desenvolveu todo um mundo de críticas, indo da política à sociedade de consumo, da banalização da violência à questões de relacionamento, e mesmo sexuais (Howard, um pato, como seu nome leva a crer, se relacionar com uma humana), tudo isso com uma dose de cinismo e acidez que hoje parece estranho ter surgido em meio ao mainstream dessa mídia. Porque, por mais que as críticas sociais tenham se consolidado no decorrer da Era de Bronze (algo entre 1970 até 1985), poucos autores tiveram uma voz tão sua quanto Gerber que, por mais que fosse restrito aos limites do meio, sempre fazia seu melhor para forçá-lo.
E ainda sobre esses exercícios, é bastante curioso notar também como Gerber se sentia à vontade para explorar suas narrativas nos formatos que melhor lhe conviessem, não sendo poucas as vezes que o autor mudou, no meio do caminho, os quadrinhos para prosa, explorando assim as possibilidades que só um texto corrido poderia lhe dar para desenvolver seus conceitos e ideias, antes de retornar para o modo original de sua mídia.
Ainda sobre essas experimentações, é importante salientar que elas não se limitavam apenas à estrutura em si. Inquieto e criativo, Gerber não se contentava apenas com a crítica social e da sátira, mas também experimentava com formatos de histórias, como podemos ver tanto em Howard e no Homem-Coisa, mas também em uma série que nunca pode concluir: Omega, The Unknown. Por mais que se apresentasse e vendesse sob a roupagem de uma típica história de super-heróis, a verdadeira pegada de Omega estava em acompanhar a vida do garoto James-Michael (que de alguma forma se relacionava ao personagem título) em um cenário urbano marcado por questões do cotidiano, como o amadurecimento, solidão e a própria questão da violência urbana, em um tipo de construção que passaria a se tornar comum apenas na década de 1980, originando, eventualmente, selos como o Vertigo, voltados para narrativas mais maduras.
Por "fim", é interessante observar também que Gerber gostava muito de trabalhar com um conceito de universo interligado, criando personagens (muitas vezes secundários) que cruzavam as séries em que ele trabalhava. Um exemplo bem característico disso é a feiticeira atlante Zhered-Na. Aparecendo pela primeira vez nas aventuras do Homem-Coisa, se tornando, inclusive um dos pontos de maior importância da história na fase do roteirista, ela irá também dar as caras nas aventuras do Filho de Satã. Outro exemplo é o da cigana Madame Swabada, que, fazendo o caminho inverso, apareceu primeiro como uma semi-antagonista nas histórias do Filho de Satã antes de dar o ar de sua graça nos pântanos da Louisiana. Separo esses dois exemplos por serem os personagens de maior destaque, mas a obra de Gerber é recheada por esses intercâmbios e auto-referências, algo que, ainda hoje, é bem pouco comum de se ver nesse meio.
Agora que estamos no final deste artigo, percebam que falei bastante sobre a atuação de Gerber na Marvel, onde o roteirista conseguiu desenvolver e trabalhar por mais tempo. No entanto, isso não quer dizer que ele não tenha sua importância em outras companhias. Por mais que tenha construído boa parte de sua carreira na Casa das Ideias, o roteirista também atuou em outras editoras, como a DC Comics, onde trabalhou com personagens como o Sr. Milagre e o Senhor Destino. Além disso, elaborou, ao lado de Frank Miller, uma proposta para reimaginar a Trindade da editora. A proposta, infelizmente, não foi aceita, mas serviu de base para aquilo que viria a se tornar um dos grandes clássicos dos quadrinhos de super-heróis: o Cavaleiro das Trevas.
Ainda nos quadrinhos, Gerber foi um dos grandes nomes a bater de frente na luta pelo direito de propriedade dos artistas, tendo processado a Marvel pelos direitos de Howard, O Pato. É desse processo que, ao lado de Jack Kirby, outro grande nome dessa batalha, deu vida ao Destroyer Duck, personagem que serviu como base de sátira e paródia de nomes - e de toda a situação - da indústria dos quadrinhos de sua época. O processo, infelizmente, foi decidido em favor da Marvel, ainda que tenha dado fôlego para os movimentos que viriam depois, como o da Image Comics, por exemplo.
Apesar das desavenças jurídicas, Gerber continuou trabalhando no meio, e entre as grandes editoras, até seu falecimento, em 2007 de Fibrose Pulmonar Idiopática.
Além dos quadrinhos, Gerber também atuou como roteirista em séries como Jornada nas Estrelas: A Nova Gerçaão, assim como foi editor em desenhos como Transformers, G.I. Joe, Caverna do Dragão e As Novas Aventuras de Batman e Superman, sendo um profissional tão múltiplo quanto o seu estilo narrativo.
Percebem o porquê desse ser um autor tão fascinante, e o porquê da indignação dele ser tão pouco conhecido por aqui?
Referências:
https://www.planocritico.com/critica-demolidor-por-frank-miller-e-klaus-janson-1979-a-1983/
https://en.wikipedia.org/wiki/Swamp_Thing_(comic_book)
https://www.trashmutant.com/the-reason-is-no-reason-steve-gerbers-elf-with-a-gun.html
https://www.cbr.com/steve-gerber-the-son-of-satan-and-evil/
https://www.galeriadameianoite.com.br/post/analisando-quadrinhos-homem-coisa-edição-gigante-4-1975
https://nikdirga.com/2021/01/30/the-mystery-is-the-point-omega-the-unknown/
https://50yearoldcomics.com/2025/12/27/omega-the-unknown-1-march-1976/








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