quinta-feira, 18 de junho de 2026

A Primeira Dama da Bonelli, Júlia Kendall - por Lucas Freitas



Vamos começar o texto de hoje com um pequeno teste. Pense no nome
Bonelli e me diga qual foi o primeiro título que lhe veio à mente.

Se você é brasileiro, e teve um histórico de visitar bancas ou comic shops, acredito que não seja de todo impossível que o primeiro nome em que você pensou foi o do ranger Tex Willer. Em seguida, caso prossigamos com esse exercício, imagino que outros nomes prováveis sejam aqueles de outros títulos de western, como Mágico Vento (Ned Ellis) ou Zagor, o que ressalta o quão forte é a relação da editora italiana com esse gênero.

Ainda assim, resumir a Bonelli a uma editora focada em westerns é perder um grande ponto.

Ao longo de seus mais de oitenta anos de história, a editora, que recebeu seu nome final em 1990 como uma homenagem ao lendário roteirista e editor Sérgio Bonelli (1932-2011), trabalha com uma série de gêneros diferentes, como o terror, suspense policial e ficção científica – isso quando não opta por misturar esses gêneros. É dessa seara de produções que sairão nomes como Martin Mystére, o detetive do impossível, Nathan Never, o policial do futuro, Dylan Dog, o detetive do Pesadelo e Harlan Draka, meio vampiro protagonista da série Dampyr.

E, em meio à essa célebre galeria de personagens, existe uma que, pelo menos para mim, se sobressaí. Seu nome? Júlia Kendall.

Arte que apresenta a protagonista da série, Júlia Kendall, em primeiro plano com um sobretudo vermelho

Uma das primeiras – se não a primeira¹ – personagem da editora a estrear em um título próprio, a criminóloga de Garden City foi criada em 1998 pelo quadrinista Giancarlo Berardi (co-criador de Ken Parker) a pedido do próprio Sérgio Bonelli. E esse não foi um trabalho fácil. Como sempre menciona nos textos de abertura das edições da revista, para construir uma obra bastante verossímil, Giancarlo mergulhou fundo no mundo da sua personagem. De fato, como bem sumarizado pelo Luiz Santiago, do Plano Crítico:

“ (...) [Giancarlo] estudou criminologia e medicina legal no Instituto de Gênova, frequentou cursos de psicologia, sociologia, psiquiatria, psicanálise, balística e também mergulhou na leitura de romances policiais e estudou o processo de escrita no estilo de crônicas jornalísticas e relatórios jurídicos e policias, além de roteiros de cinema, fazendo seu recorte pessoal para os gêneros noir, suspense e documentário, tudo isso para chegar a uma composição bastante satisfatória para o gênero que de fato se enquadra a obra, o giallo (apesar de se passar nos EUA).”

Esse repertório se faz perceber no modo como as histórias de Júlia são construídas. Pois, enquanto boa parte dos romances e narrativas policiais trazem o foco para o crime propriamente dito, aqui, somos apresentados à uma visão mais global de todo o processo. Sendo uma professora universitária e prestando consultoria à polícia de sua cidade, a criminóloga traz consigo uma bagagem que permite ao autor a exploração de conceitos e temas que vão enriquecendo às histórias. De fato, esse é o tipo de leitura onde não é de todo impossível que o leitor se veja pego em um debate sobre sociologia e psicologia enquanto a investigação acontece, seja como uma forma de contextualizar e apresentar o ocorrido, seja para atiçar o debate entre obra e leitor, trazendo perspectivas pouco comuns para os quadrinhos e o gênero.

Mais do que acrescentar um texto mais denso à história, essas inserções fazem um trabalho excelente ao multifacetar as histórias de Júlia, que jamais se reduzem à dinâmica simplista do “bem vs. mal”. Existem, é claro, criminosos e, dentre eles, alguns responsáveis por crimes terríveis, e isso nunca entre em debate. Em nenhum momento, porém, a história se presta à reduzi-los ou trata-los como algo que não sejam humanos. São pessoas perigosas, é verdade, e responsáveis por seus atos, mas em nenhum momento uma história do universo de Júlia os reduz à simples condição de monstros, se preocupando em trazer uma contextualização e uma apresentação que, longe de justifica-los, nos fornece uma visão clara, e muitas vezes desconfortável, do abismo terrível que é o coração humano.


Não que essa visão seja compartilhada de modo unânime na série, pois, assim como acontece na vida real, personagens diferentes terão ideias e pontos de vista diferentes. Um exemplo claro disso é o tenente Webb, um dos principais contatos de Júlia na força policial, e personagem recorrente nas suas histórias. Diferente da criminóloga, o policial possuí uma visão bem mais estreita sobre a dinâmica de crime e castigo, o que muitas vezes o colocará em choque com sua colega de trabalho. Ainda assim, por mais que se estranhem e discutam bastante, existe, entre os dois, um respeito e uma admiração profissional que muitas vezes faz falta em nosso mundo.

Um outro aspecto bem interessante das histórias de Júlia, e que de novo é produto do trabalho de estudo e pesquisa de Giancarlo, é o modo como a psicanálise atua como um alicerce bem importante para a série. Bastante atrelada ao mundo onírico, Júlia é uma personagem cujos processos e dilemas, sejam eles seus próprios traumas ou a resolução dos crimes, podem ser acompanhados através das representações que seu inconsciente lhe oferece todas as noites por meio de sonhos (ou pesadelos). Esse mecanismo permite que não só o leitor conhece um pouco melhor o cenário interno da protagonista, como também ajuda, qual um Watson improvável, a embasar o processo dedutivo da história.

Isso, claro, sem mencionar a carga de lirismo que os sonhos de Júlia garantem à história.



Um outro elemento bastante interessante das histórias de nossa criminóloga favorita, e mais uma vez prova o cuidado que suas histórias recebem, está no fato dos dilemas com que ela precisa lidar. Forte e independente, Júlia precisa lidar com o fato de ser uma mulher em campos majoritariamente dominados por homens. Melhor ainda, talvez, seria dizer que ela também precisa lidar com o fato de ser mulher, tendo que lidar com questões bem específicas do mundo feminino, como o peso da passagem do tempo (uma vez que, diferente dos comics, a personagem envelhece ao longo das histórias), a solidão feminina, a pressão compulsória que a sociedade coloca sobre relacionamentos, a culpa por se dedicar a uma carreira e não uma “vida tradicional”, tudo isso ao mesmo tempo e que precisa lidar com seus próprios traumas e relacionamentos conflituosos.

E é isso o que torna Júlia uma série tão fascinante.

Com personagens altamente complexos e uma narrativa que consegue ser bem densa e cerebral, mas sem nunca chegar a ser impenetrável, Júlia Kendall é de longe um dos melhores títulos em publicação atualmente, e acredito que não conseguiria abordar em um único texto essa maravilha narrativa. Por isso, farei melhor e, encerrando o texto por aqui, vou te entregar um par de luvas e afastar o cordão de isolamento, para que você possa também adentrar nesse mundo sombrio e perigoso, mas riquíssimo.

Garanto que vai valer a pena.

Publicada no Brasil pela Mythos desde 2004², Júlia Kendall segue a ser publicada de modo praticamente ininterrupto, ganhando, inclusive, coleções Omnibus e especiais. Dentre eles, o relançamento da série, em formato mais próximo do original, que você pode conferir  aqui na própria Comic House


P.S: Como se tudo isso ainda não fosse suficiente, existe ainda um outro elemento bastante interessante em Júlia, que é a estreita relação que a mesma possuí com o cinema. Além de referenciar filmes em suas histórias, os próprios personagens são também referências, visto que Júlia é desenhada de modo a lembrar a atriz Audrey Hepburn, por exemplo, enquanto outros personagens de seu elenco, como o supracitado Alan Webb, são baseado no ator John Malkovitch, e sua empregada, Emilly Jones, toma por base a atriz Whoopi Goldberg.

1 - Faço esse parênteses porque, três anos antes de Júlia, Legs Weaver já estreava em um título próprio. No entanto, diferente da nossa criminóloga favorita, Legs iniciou sua carreira em 1991, sendo uma coadjuvante na série de Nathan Never.

2 – Aqui cabe uma curiosidade: originalmente, a publicação da revista era apresentada apenas como Júlia. No entanto, devido à problemas com os romances de bolso de mesmo nome, a editora mudou o nome da revista para J. Kendall: Aventuras de uma Criminóloga, nome que usa até hoje.

Referências:

 

Wikipedia -  https://pt.wikipedia.org/wiki/Julia_(Sergio_Bonelli_Editore)

Plano Crítico –  https://www.planocritico.com/especial-julia-kendall-aventuras-de-uma-criminologa/





 

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