segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O estranho mundo de Junji Ito

Um pouco sobre a história e a carreira desse que é um dos grandes nomes do terror japonês

Reprodução (Imagem retirada do site: https://br.ign.com/manga/105701/feature/nao-acho-possivel-desenhar
-horror-sem-negatividade-diz-junji-ito-em-entrevista-ao-ign-brasil-leia )

Um fenômeno que acho bem curioso do terror é que, de tempos em tempos, um autor consegue furar a bolha e ser alçado a categoria de ícone pop. Stephen King conseguiu fazer isso. Lovecraft, ainda que de maneira póstuma, também.

Esse fenômeno, claro, não é algo restrito apenas à literatura. O cinema também experiencia isso, como fica evidente em nomes como o do diretor Robert Eggers ou da produtora A24, assim como os videogames (ainda que quase sempre negativamente, com polêmicas e repercussões negativas devido à violência e outros fatores), os quadrinhos e, por extensão, também os mangás.

No caso dos mangás, o terror tem uma tradição bem fascinante, visto que, não tendo sofrido uma perseguição tão intensa quanto os comics norte-americanos, o gênero conseguiu se desenvolver a pleno vapor, seja na exploração de temas e estilos, seja adotando movimentos, como o ero-guro. Essa liberdade vai produzir nomes de peso, como o do grande Shigeru Mizuki, Go Nagai, Hideshi Hino, Shintaro Kago, Kazuo Umezu e tantos outros nomes que poderia facilmente dedicar este artigo inteiro apenas na listagem.

Da esquerda para a direita: Shigeru Mizuki, Kazuo Umezu, Hideshi Hino

Contudo, por mais importantes que esses nomes possam ser para a história do mangá e, mais especificamente, para a história do mangá de terror, eles permanecem, em sua maioria, “apenas” como nomes importantes da indústria. Veja bem, não quero aqui diminuir a importância de nenhum deles, muito menos menosprezar as obras de arte que produziram. O que quero dizer é que, por mais importantes que sejam, nenhum deles conseguiu alcançar o status de ícone pop como o autor de que pretendo falar hoje.

Seu nome? Junji Ito.

Nascido em 31 de Julho de 1963, Ito teve contato com o universo do terror desde muito cedo, em parte por influência das irmãs mais velhas, que liam para eles muitos dos mangás que elas já haviam lido (isso numa época em que o autor ainda era bastante jovem, segundo ele mesmo na casa dos seus 4-5 anos). Nessa troca, Ito vai começar a se deparar com nomes como Kazuo Umezu e Shinichi Koga, autores veteranos que vão ser uma forte influência em suas obras futuras.

Além das irmãs, algumas experiências de vida também foram de extrema importância para seu fascínio pelo gênero. Dentre elas, duas que são quase sempre citadas em suas entrevistas e bibliografias são suas memórias da casa onde cresceu. Situada no interior do Japão, a casa possuía um banheiro separado, de modo que, para ir até ele, era preciso atravessar um longo corredor. Por mais que esse processo fosse algo quiçá tranquilo durante o dia, era a noite que a situação mudava de figura, com o corredor sendo tomado por grilos e aranhas que, ao lado das sombras e da música que a noite traz consigo, marcaram essa experiência para o mangaká.


Reprodução de https://jovemnerd.com.br/noticias/animes-e-mangas/junji-ito-5-mangas-para-conhecer

Outro ponto extremamente importante em sua formação como autor de terror está na sua cidade natal. A cidadezinha, próxima de Nagano, se tornou uma inspiração devido à natureza labiríntica de suas ruelas e vielas, ou, como o próprio autor viria a declarar:

“havia várias ruas estreitas entre os prédios, o que dava ao lugar a aparência de um labirinto. Eu costumava brincar de esconde-esconde nelas, ou então em prédios assustadores que haviam sido hospitais no passado. Acho que muito disso se refleteno meus trabalhos.” (Japan Society of Boston, 2023, tradução nossa)

Porém, por mais marcantes que tenham sido suas experiências iniciais, e apesar de sua paixão pelo desenho, o mesmo se manteria como um hobby por um bom tempo, visto que Ito viria a adentrar uma carreira bem diferente, se formando como técnico em odontologia.  A atuação como mangaká só viria em 1987, quando enviou uma história para a Monthly Halloween, onde ganhou a menção honrosa no Kazuo Umezu Prize, sendo avaliado por um de seus grandes ídolos, o próprio Kazuo Umezu.

Esse primeiro trabalho, mais tarde, viraria a ser serializado e se tornaria uma das obras mais famosas de Ito: Tomie. Mas vamos por partes sim?

Apesar desse reconhecimento inicial e de uma produção constante, Ito continuou a atuar como técnico, balanceando o trabalho na área de saúde com sua arte até 1990 quando, cansado da rotina dupla, decidiu se dedicar em definitivo ao mundo do mangá. Ainda assim, mesmo hoje o autor carrega muito do que aprendeu em sua época na área de saúde, seja no estudo de anatomia, seja na utilização de técnicas de odonto para adaptar seus lápis e pincéis para gerar os efeitos que ele quer no papel.

Um aspecto bastante curioso na produção de Junji Ito está na preferência do autor por histórias curtas. Enquanto autores como Shigeru Mizuki produziram séries como Ge Ge no Kitarou, por exemplo, a produção de Ito se caracteriza por ir no caminho contrário. Muito disso ocorre porque, como o próprio autor comenta, ele prefere o formato da história curta, visto que ela consegue conter e segurar melhor as peculiaridades do terror (algo que, como autor, eu tendo a concordar bastante). Contudo, não podemos descartar também outros fatores associados ao seu trabalho, como o pontapé inicial de seu processo, que sempre começa com uma ideia visual que ele vai desenvolver em formato de história, assim como o fato de Ito geralmente trabalhar sozinho, e ter uma arte detalhada ao ponto de uma página levar de 8 a 9 horas para ser concluída.

Cena de Uzumaki, de Junji Ito

Não que isso seja uma surpresa. Afinal, dono de um traço bem particular, o mangaká usa e abusa de detalhes em sua arte, trabalhando com texturas e sombras que dão volume, forma e até mesmo consistência aos seus horrores. Aqui, também é importante salientar o domínio que ele tem de sua mídia, visto que sabe usar como ninguém o contraste de preto-e-branco do mangá para criar ambientações e atmosferas bem desconfortáveis e opressivas – uma parte vital de sua obra, diga-se de passagem.

Da mesma forma, esse hiper detalhismo também é uma idiossincrasia do autor, visto que ele sofre daquilo que chama de “fobia do espaço em branco”, sentindo a necessidade de preencher sua arte, e a página, com o máximo de detalhes possível.

Como resultado, os mangás de Junji Ito nos entregam cenas e situações que, apesar de grotescas, tem uma forte carga de realismo, o que ajuda o leitor a entrar de cabeça na história que o mangaká se propõe a contar, uma vez que, por apresentar algo tão real, ele consegue suspender, ainda que momentaneamente, o senso de absurdo e surrealismo que suas histórias muitas vezes trazem.

Perceba que todos esses fatores casam maravilhosamente bem com o formato de história curta, mas isso não significa que Ito nunca tenha se aventurado em narrativas mais longas. De fato, muitos de seus trabalhos mais conhecidos, como Tommie, Gyo e Uzumaki, são séries, com as duas últimas surgindo entre o final dos 1990 e começo dos 2000. Ainda assim, esse está longe de ser seu formato preferido, de modo que são os contos sua verdadeira identificação.

Capas de edições nacionais de algumas das obras de Junji Ito: Tomie, Gyo e Uzumaki

Agora, diante de tudo isso, fica a pergunta: como um autor japonês, com um traço tão específico e um pendor tão forte para o grotesco, conseguiu ser alçado à condição de ídolo pop?

Bem, já falei em algumas ocasiões sobre como o terror é um gênero que consegue, como poucos outros, trabalhar e dar forma aos medos e ansiedades de um povo e de sua época. Assim, por mais que muitas vezes não consigamos falar ou identificar as sensações que estão lá, a ficção de terror surge para suprir essa lacuna. Se no período vitoriano os ingleses tinham medo do grande afluxo de estrangeiros que vinham para o Império, era quase que natural que um Drácula, um estrangeiro que vem para destruir o modo de vida britânico ao adotar seus costumes e normas, surgisse. Numa época em que a ciência e tecnologia surgiam e mudavam a visão de mundo, e do próprio homem e seu papel no universo, nada mais natural que os horrores cósmicos, e extremamente materialista, de H.P.Lovecraft ganhassem forma e se desenvolvessem. Numa época em que nosso país sofria com a violência e repressão de um sistema político,  moral e religioso,  Zé do Caixão apareceu vagando por uma cidadezinha do interior, trazendo consigo doses cavalares de violência e brutalidade para expor nossos terrores e tabus diante de nossos olhos que não queriam acreditar.

E é exatamente nesse ponto que a obra de Junji Ito encontra seu ponto de conexão conosco. Por mais que se aventure nos terrenos do body horror e do horror cósmico, as histórias que o mangaká conta versam sobre questões bem humanas, explorando temas como os riscos da obsessão, do narcisismo extremado, da violência da guerra, e tudo isso embalado em um involucro tão grosteco e surreal que, mais do que se equiparar com nossos tempos, nos choca a ponto de nos tirar do automático e parar para perceber o mal estar nosso de cada dia que espreita por trás de nossa sociedade e suas relações.

E é ao oferecer essa visão do horror que tantas vezes deixamos passar que acredito que a obra de Junji Ito adquire sua força, ressoando de modo global com seu público.


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Perfil do Instagram da Comic House

 

Referências:

 

https://www.galeriadameianoite.com.br/post/shigeru-mizuki-e-a-influência-dos-quadrinhos-de-terror-norte-americanos

https://www.galeriadameianoite.com.br/post/a-versão-de-shigeru-mizuki-para-o-horror-de-dunwich

https://www.galeriadameianoite.com.br/post/os-peixes-de-gyokoo-e-a-criação-do-efeito-de-estranheza-em-uma-obra

https://br.ign.com/manga/105701/feature/nao-acho-possivel-desenhar-horror-sem-negatividade-diz-junji-ito-em-entrevista-ao-ign-brasil-leia

https://www.instagram.com/p/DeNKIt0mKWS/?utm_source=ig_web_copy_link&dlrf=MzRlODBiNWFlZA==&srtk=MzRlODBiNWFlZA==

https://www.japansocietyboston.org/post/junji-ito

https://www.youtube.com/watch?v=cGlXQg6JnaI&t=6s