quarta-feira, 11 de maio de 2016

Bulldogma, de Wagner Willian





Deisy Mantovani é uma ilustradora de embalagens e livros infantis que está fazendo sua primeira história em quadrinhos, entre um freelancer e outro.

Junto com o seu buldogue francês Lino, ela acaba de se mudar para um apartamento num bairro com suspeitas de abduções alienígenas, por causa do solo rico em silício, o que reflete densa energia do campo magnético da Terra, atraindo as naves de outros mundos.

Enquanto trava a sua busca frenética por trabalho, festas e romances complicados, Mantovani garimpa filmes de ficção científica, vídeos do YouTube sobre ufologia e questionamentos filosóficos sobre a realidade.

A princípio, os fãs de ficção científica devem ser avisados que Bulldogma não é uma aventura do gênero. A obra se utiliza da sci-fi para traduzir toda uma realidade emocional embutida na protagonista.

Wagner Willian vai dando as “dicas” ao longo da narrativa. Inclusive, as fichas técnicas de filmes, músicas, livros e outros detalhes no rodapé das páginas, para facilitar a “apresentação” ao leitor, que poderá ocupar sua bagagem cultural com esses itens.

É a desconstrução do cotidiano da protagonista – gerado como se fosse um alter ego do próprio autor –, apoiada na construção desses artifícios artísticos, musicais, literários e cinematográficos.
Tome como base um dos cartazes que está no apartamento de Mantovani: Jules e Jim (1962), clássico de François Truffaut (1932-1980). O filme faz parte do movimento francês Nouvelle Vague, iniciado no final dos anos 1950 e desaguando na direção contrária do que era imposto pelo cinema hollywoodiano na época.

Dentre as características do movimento que rompeu com as tradições estéticas estão o tom confessional como um “diário íntimo” (de acordo com o próprio Truffaut), a fragmentação narrativa livre de convenções e a incorporação do acaso. Todos esses elementos estão presentes em Bulldogma.
Atente também para um dos momentos finais e importantes do álbum, que faz alusão ao final de outro clássico (com toques autobiográficos) do realizador francês, Os incompreendidos (1959).

Assim que chega à nova morada, Deisy – com sua sempre pronta e pulsante veia artística – pinta um cenário atrás do sofá da sala. Essa ação aparentemente banal sinaliza outro norteamento que é fragmentado na narrativa, o transcendentalismo.

Como o nome já indica, a corrente “transcende” o empírico e o físico, enfatizando a percepção através da consciência intuitiva sobre o racionalismo, além da exaltação ao indivíduo nas relações com a Natureza e a sociedade. Aqui, o centro urbano é um personagem fundamental.

Tais métodos alógicos da compreensão da verdade estão presentes no cinema de David Lynch, na literatura de Henry David Thoreau (1817-1862) e nas HQs de Daniel Clowes, todos de alguma forma citados no álbum de Willian.

São dois mundos – uma realidade factual e outra sensitiva, como são definidas na narrativa – que, na verdade, são apenas um.

Quase tudo que é palpável na vida da freelancer pode ser visto de forma racional, como as tretas do trabalho, a dúvida numa parte metalinguística de sua HQ ou as desilusões amorosas. Estes mesmos fatos e casualidades também geram o “mundo sensitivo”, onde os simbolismos residem tanto nos elementos pop quanto no seu bichinho de estimação, que traduz um valor afetivo, um refúgio para as agruras e mazelas da vida.

Nesse sentido, pode-se desdobrar o fractal em mais uma parte: a do cada vez mais presente mundo virtual, que entorpece e substitui os sentidos e os relacionamentos, respectivamente. Ela (2013), filme de Spike Jonze que traz à tona essa discussão, é citado e o personagem vivido por Joaquin Phoenix é inserido no meio urbano da obra.

Entrecortado por simulações de cartazes que remetem à ficção científica, há um sem-número de referências famosas e pouco conhecidas do público, que vai desde filmes como Invasores de Marte (1953), Inimigo Meu (1986) e Fogo no Céu (1993), passando pelas pinceladas de terror da polonesa Aleksandra Waliszewska, até o canal da internet de quadrinhos e cinema Pipoca e Nanquim.

Para quem está mais familiarizado com o cenário das HQs nacionais, também há muitos “figurantes” em Bulldogma. Rogério de Campos, editor da Veneta, os quadrinistas Marcello Quintanilha (autor do premiado Tungstênio), Shiko (de Lavagem), Juscelino Neco (Parafusos, zumbis e monstros do espaço) e o casal Cristina Eiko e Paulo Crumbim (Penadinho – Vida) e até integrantes da equipe do Universo HQ, como Lielson Zeni, Zé Oliboni e Sidney Gusman são alguns dos “extras” presentes no álbum.

Dono de um traço despojado e solto, Wagner Willian não traduz tudo nos seus desenhos, fazendo com que o público participe da “leitura visual”. Sua narrativa ainda coloca detalhes interessantes, como o topete do famoso personagem do belga Hergé (1907-1983) para brindar ou as linhas de diálogos verticais, envolvendo o espaço e até o buldogue Lino.

Sobre as questões editoriais, o livro apresenta capa cartonada com orelhas, papel off-set de boa gramatura e impressão, além de uma pequena biografia do autor. O ponto negativo vai para o trabalho de revisão, que deixou passar muitos erros primários e palavras que não “casam” com a arte (algumas vezes, o texto no visor do celular não está posicionado corretamente na tela, “vazando”).

Vale frisar que não é a primeira aparição de Deisy Mantovani. A personagem está num dos contos ilustrados da coletânea Lobisomem sem barba (Balão Editorial), segundo lugar na categoria Ilustração do Prêmio Jabuti 2015.

Como bônus, o autor produziu um site contendo book trailers, cenas alteradas, desdobramentos, easter eggs, bastidores e participações especiais, além da seção Flerte da mulher barbada, na qual a própria Deisy Mantovani entrevista vários profissionais do universo dos quadrinhos.

Obra de fôlego (um calhamaço de 320 páginas, algo bastante incomum no mercado nacional), Bulldogma é uma história em quadrinhos de difícil assimilação, que precisa ser lida mais de uma vez para apanhar as nuances de sua narrativa ou refletir em cima de seus simbolismos.

O leitor pode se ater mais aos fragmentos racionais e realistas, mas as situações insólitas na HQ é que vão procriar controvérsias, discussões e as sempre presentes incompreensões.

Traduzindo melhor, tome como verdade uma afirmação da própria protagonista no transcorrer da história: “Você está muito mais preocupado em chegar a algum lugar do que simplesmente estar lá”. Boa(s) leitura(s).

Título: Bulldogma
Autor: Wagner William
Páginas: 320Formato: 16 x 23cm •
Acabamento: capa cartonada
R$  59,90
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(Resenha publicada originalmente no site Universo HQ )

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sharaz-De – Contos de As Mil e uma Noites, de Sérgio Toppi

A editora Figura estreia no mercado editorial brasileiro com Sharaz-De, obra do ilustrador mestre dos quadrinhos italianos Sergio Toppi.

De acordo com a própria editora, a proposta de suas publicações é, fundamentalmente, dedicada à imagem, seja em forma de ilustrações, quadrinhos, fotos ou pinturas. “Lançar livros para o fascínio dos olhos e da alma é a nossa meta”, afirma o editor Rodrigo Rosa. “Por isso que Toppi nos representa tão bem nessa largada: ele é o tipo de artista ao qual é impossível ficar indiferente, tal a originalidade e a beleza de sua obra.”

Foi nas páginas de Sharaz-De, publicada a partir de 1979, que Toppi consolidou seu estilo e rompeu com os padrões da narrativa dos quadrinhos da época.

A obra apresenta vários contos baseados em Mil e uma Noites, explorando a bárbara sociedade na qual o sobrenatural é a única solução para a injustiça. Sharaz-De (ou Sherazade, como é conhecida por aqui) é refém de um Rei cruel e déspota, e toda noite é obrigada a contar histórias para o seu mestre a fim de continuar viva.

Título: Sharaz-De – Contos de As Mil e uma Noites 
Autor: Sergio Toppi
Edição: formato 21 x 29,7 cm, 160 páginas, capa dura, 
Preço: R$ 79,90
 
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(Notícia extraída do site Universo HQ )
 
 

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sessão de Autógrafos de Luiza de Souza e Daniel Esteves


terça-feira, 3 de maio de 2016

Sessão de Autógrafos de Luiza de Souza e Daniel Esteves




No sábado, 07 de maio, às 18h30min, na Comic House (Avenida Nego, 255, Tambaú, João Pessoa/PB), será a vez dos quadrinhistas autografarem suas obras.

Na ocasião, Luiza de Souza fará o lançamento da hq "Contos Rabiscados Para Corações Maltrapilhos" (164 páginas, R$ 35) enquanto Daniel Esteves assinará exemplares dos seus trabalhos mais recentes, "Por mais um dia com Zapata"(formato 20,4 x 29,5 cm, 136 páginas, R$ 25), "Archimedes Bar" (16×25 cm, 32 páginas, R$ 10), "147" (15×22 cm, 24 páginas, R$ 10), além de autografar seus trabalhos anteriores "São Paulo dos Mortos vol 01" (formato 16×25 cm, 96 páginas, R$ 25), "São Paulo dos Mortos vol 02" (formato 16x25 cm, 32 páginas, R$ 15)

Colecionadores de outras cidades podem adquirir seus exemplares autografados no site da loja (www.comichouse.com.br).


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Uma metamorfose iraniana, de Mana Neyestani




Mana Neyestani se tornou vítima do sistema totalitário instaurado pelo regime do Irã em 2006, no dia em que desenhou uma conversa entre um personagem e uma barata no suplemento infantil de um jornal iraniano. Nesse papo, o inseto utilizou uma palavra azeri.


Os azeris, povo de origem turca do norte do Irã há muito oprimido pelo regime central, se sentiram provocados com o desenho, que para muitos foi o estopim para desencadear um levante.


O regime de Teerã precisa de um bode expiatório: Mana Neyestani. Ele e o editor da revista são detidos e mandados para a prisão 209, uma seção não oficial da penitenciária de Evin, sob a administração da Vevak, o ministério das Informações e da segurança nacional.



Para concluir uma das suas mais conhecidas obras, A Metamorfose, Franz Kafka (1883-1924) teve menos de um mês. Paralelo à história do caixeiro viajante que um dia acorda transformado num inseto, o iraniano Mana Neyestani teve bem mais tempo para vivenciar seu recorte biográfico apresentado neste álbum: três meses preso.


Se Franz Kafka discorre sobre o estado emocional do homem, analisando o comportamento do protagonista e sua família, Uma metamorfose iraniana também coloca a vida do autor nesse prisma, adicionando a crítica do autoritarismo burocrático tão presente nas ideias de Kafka.


O problema maior é que Mana estava bem longe de uma crítica sócio-política como todo bom quadrinhista de jornais reformistas, que tiveram ascensão principalmente no final dos anos 1990. Particularmente numa noite de poucas ideias, a figura inocente de uma barata ganhou forma na sua tinta, junto com um termo azeri que até ele mesmo usava no dia a dia.


O que parecia um trabalho nada arriscado para um público jovem perante as críticas políticas por meio das ilustrações e charges, tornou-se um verdadeiro pesadelo para Neyestani.


Após as Guerras Russo-Persas, esse grupo étnico de origem turca da Ásia Central foi dividido em dois territórios, cuja maior parte se encontra dentro do Irã, mais especificamente na região ao norte, chamada de Azerbaijão Iraniano
.

Os azeris são um povo cuja religião majoritária é o islamismo xiita, a mesma do Irã. Seu idioma também é muito próximo dos turcomanos.


Diante de tanta complexidade e no caldeirão de conflitos religiosos e políticos que é o Oriente Médio, o “mal-entendido” gráfico foi usado como uma alfinetada panfletária que causou discórdia e tumulto no Azerbaijão; e “o pato” – ou seria o inseto? – foi pago pelo ilustrador e seu editor.


Como uma sobrevivente à altura de inseticidas e hecatombes nucleares, a barata vai acompanhá-los durante todo o longo episódio, como um lembrete incômodo do autoritarismo kafkiano do regime vigente.


Em capítulos curtos, Mana Neyestani usa várias chineladas criativas, deixando a narrativa angustiante, mas, ao mesmo tempo, paradoxalmente mostra seu tom irônico e bem-humorado.


Os exemplos podem ser vistos nas temerosas reflexões que o autor faz de seu destino com o passar do tempo, como também no uso bastante oportuno de várias referências metalinguísticas.


Na obra, Neyestani coloca um nariz de Pinóquio no diretor do jornal que promete apoio, dá corda no advogado que canta de cor artigos do código penal, imagina a cela como uma ilha isolada ou simplesmente ganha asas e quebra a moldura da diagramação (sendo repreendido pelo chefe da segurança pela metáfora).


Na época, até um jogo de futebol entre o Irã e México, na Copa do Mundo de 2006, vira motivo de esperanças de acalmar as tensões no Azerbaijão.


Com um traço cheio de hachuras, que lembra o melhor do underground de Robert Crumb, o quadrinhista vai construindo não só as suas memórias, mas também as suas impressões além dos registros fieis, como a ida de olhos vendados à sala de interrogatório.


A tensão cresce quando ele e o editor são transferidos para o prédio principal, convivendo com outros detentos com identidade e delitos falsos. Novas situações e personagens são apresentados, impulsionando a trama para o paciente plano de fuga junto com a esposa, quando Neyestani é colocado em liberdade provisória.


Perseguições políticas, arbitrariedades praticadas em nome da lei e a questão sempre polêmica acerca da liberdade de expressão automaticamente remetem a episódios como o ocorrido em janeiro deste ano, no ataque contra a redação da revista Charlie Hebdo, na França (país onde Mana Neyestani atualmente reside), que deixou 12 mortes e vários feridos.


A publicação da Nemo segue o padrão editorial de outros títulos da editora, como O mundo de Aisha e O muro: volume em brochura com formato 17 x 24 cm, capa cartonada com orelhas, papel offset de boa gramatura e impressão.


Há algumas poucas “escorregadas”, como todas as numerações dos capítulos serem por extenso, menos o primeiro (indicado por algarismo arábico, “1”), a omissão das palavras “de uma” no recordatório da página dupla (20-21) – “…por causa de uma simples palavra…” –, e o hífen em “procurador-geral” no primeiro quadro da página 26.

Enfim, nada que diminua Uma metamorfose iraniana, que é uma das melhores HQs deste primeiro semestre, garantindo a Nemo como uma das principais editoras do Brasil no equilíbrio qualitativo e quantitativo de materiais que raramente seriam vistos por aqui

Título: Uma metamorfose iraniana
Autor: Mana Neyestani
Páginas: 208Formato: 17 x 24cm •
Acabamento: capa catonada
R$  39,90
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(Resenha publicada originalmente no site Universo HQ )

terça-feira, 5 de abril de 2016

Jockey, de Rafael Calça e André Aguiar



Por Audaci Jr
Durante a Era de Ouro das corridas de cavalo, os porões do Jockey Clube continham muitos mistérios. Golpes, subornos, intrigas, morte, sorte e azar.

O segredo dos delírios de um homem está por trás daqueles portões, como também a chance de redenção de um jovem negro que sempre se considerou um azarão, a provação do amor de um casal que nunca pôde decidir o seu destino e alguém extremamente perigoso por sua obsessão pela sorte.

O acaso está lançado quando a vingança vem a galope. O cenário é o Jockey Clube de uma metrópole dos anos 1940 que remete à capital paulista, oferecendo todo o clima pulp extraído em profusões da veia do noir, tendo como base as corridas de cavalo.

O que mais chama a atenção em Jockey é a forma como Rafael Calça e André Aguiar estruturam a história, com uma economia de balões e recordatórios que abre espaço para um intricado jogo envolvendo propina, máfia e um inusitado toque fantástico em meio aos diálogos bem escritos e cheios de personalidade.

Em muitas sequências, o álbum enquadra na sua funcional e equilibrada diagramação uma narrativa altamente cinematográfica, a exemplo de uma perseguição automobilística, a fuga ligada ao sobrenatural e o embate físico de antagonistas galopando dentro do hipódromo.

Na obra, homens da lei corruptos, um jornalista sem ética prestes a perder a cabeça, um libidinoso político com duas-caras, o honesto jóquei negro que sofre preconceito, o detetive azarado que vira herói, um louco homicida que bate papo com o espírito de um cavalo, amores proibidos e uma seita de gângsteres com direito a cabeça decepada de cavalo, uma referência (de certa forma) ao clássico O Poderoso Chefão (1972), filme de Francis Ford Coppola baseado no romance de Mario Puzo (1920-1999).

Nesse desfile de personagens, os autores vão cravejando várias dúvidas e mistérios nas histórias paralelas que serão amarradas à medida que a HQ se aproxima do fim.

Antes de as tramas se cruzarem, uma série de eventos cai sobre os personagens, sejam as ações orquestradas pelo mero acaso do destino, ou movidas pelo planejamento violento da vingança guardada há um tempo equivalente ao azar de um espelho quebrado ou ainda por uma conspiração arquitetada pelo estranho e ganancioso culto.

É citada por essa seita a divindade bélica da mitologia lusitana chamada Cariocecus, o equivalente a Marte e Ares para as crenças romana e grega, respectivamente. A doutrina chegava a sacrificar prisioneiros de guerra e cavalos.

Ainda no plano místico, algumas vezes é tocado no conceito da Roda da Fortuna, carta do tarô que é uma das mais expressivas da sorte, mudanças e oportunidades, o movimento perpétuo da vida e do destino. Ela representará a boa ou a má sorte, dependendo de decisões e atitudes, motes também da HQ.

Por ser climatizado com as penumbras do noir, Jockey possui um humor negro em uma ou outra situação. Já a figura da femme fatale se resume praticamente às curvas desnudas no traço de André Aguiar em poucos momentos. Inusitadamente, a personagem feminina que tem mais importância na trama não carrega essa característica, apesar da sua última aparição.

A arte cheia de hachuras casa bem com a narrativa de cores sombrias e pesadas. Os desenhos de Aguiar fazem lembrar a escola europeia, principalmente aos nomes franceses como Christophe Blain, autor de Isaac, o pirata (cujo primeiro volume foi lançado no Brasil em 2005 pela Conrad).

Com cenas abertas, há passagens que impressionam pelo requinte técnico. Dentre os destaques, o quadrinhista “esculpe” as feições de um dos protagonistas nas sombras usando apenas o efeito das hachuras.

Ambos paulistanos, André Aguiar é autor da independente Velhaco’s (2014), HQ que envolve skate punk num futuro distópico; e Rafael Calça participou de coletâneas como o Front # 17 (Via Lettera, 2006), além de ter lançado seu primeiro trabalho solo, Dueto (2013), uma love story entre um lobisomem e uma cantora paraplégica.

O projeto foi contemplado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura de São Paulo – ProAC para criação de quadrinhos. A edição da Veneta tem formato 21 x 28 cm, capa dura e uma impressão irregular no papel offset.

Jockey faz a sua “dança da sorte” bem antes do joguete com seus personagens, já na epígrafe que faz uma homenagem ao famosíssimo tango Por una cabeza, música de Carlos Gardel (1890-1935) com letra de Alfredo Le Pera (1900-1935). Uma das últimas parcerias dos artistas latino-americanos, mortos no mesmo desastre de avião.

Do que trata o popular tango? O vício da corrida de cavalos e a atração por mulheres. Seja como for, a Roda da Fortuna gira…


Título: Jockey
Autor: Rafael Calça e André Aguiar
Páginas: 136 • Formato: 21 x 28cm •
Acabamento: capa dura •
R$  49,90
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(Resenha publicada originalmente no site Universo HQ )

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O trem dos órfãos 1 – Jim / 2 – Harvey, de Philippe Charlot, Xavier Fourquemin e Scarlett Smulkowski



Em Nova York, Estados Unidos, devido ao alto número de crianças abandonadas – a maioria originada da imigração – foi criado, em 1854, o programa Orphan Train Riders, considerado até hoje como a maior migração de menores na história da humanidade.

Em sua maioria órfãs, as crianças eram transportadas ao Centro-Oeste estadunidense em desenvolvimento para serem adotados por fazendeiros e utilizadas como mão de obra barata.

Em 1920, dentre essas crianças, estão Jim e Harvey, que, após 70 anos, voltam a se encontrar e a desenterrar memórias que encontravam encarrilhadas naquela viagem de trem.

Depois de revisitar o bom e velho jazz de Nova Orleans em dois volumes de Bourbon Street (Os fantasmas de Cornelius e Turnê de despedida, ambos lançados no Brasil pela 8Inverso), o roteirista francês Philippe Charlot toca num assunto totalmente desconhecido da História norte-americana, que ajudou a formar toda uma nação, para o bem ou para o mal dos seus protagonistas.

Atualmente com cinco tomos na França, esta edição nacional fecha o primeiro ciclo com os dois primeiros volumes (Jim e Harvey), colocados de modo ininterrupto devido a questões contratuais da BesouroBox com a Bamboo Édition.

No início do Século 19, houve uma intensa imigração para os Estados Unidos, principalmente por causa da crise econômica na Europa, em virtude da industrialização e concentração fundiária.

Com o constante crescimento demográfico no Leste, era cada vez mais desejada (e ambiciosa) a conquista das terras do chamado Oeste Selvagem. Desde a construção da malha ferroviária, a descoberta de ouro, a Doutrina Monroe de “a América para os norte-americanos”, os conflitos como a Guerra do México (1845-1848) e a dizimação indígena, a expansão deixou de ser sonho para virar realidade.

Uma realidade dura, diga-se de passagem, tanto para o desbravador quanto para os nativos. Uma oportunidade de amenizar essa concentração populacional de órfãos e meninos de ruas foi o Orphan Train Riders, programa criado pelo reverendo Charles Loring Brace para solucionar esse imenso problema social em Nova York.

Na teoria, a intenção era boa: tirar os pequenos de uma vida miserável, de criminalidade e sem perspectivas, para dar educação, morada e zelo familiar até os 17 anos de idade. Mas não era bem essa cartilha ditada pelo projeto no decorrer dos anos, junto à postura negligente dos agentes do programa.

Como em todos os cantos, o ambiente corruptor não era apenas nas ruas. No desenrolar da trama (baseada em depoimentos de quem viveu essa situação ou de sua prole), O trem dos órfãos mostra todos os buracos no sistema que resultaram numa vida indigna para essas crianças, que eram obrigadas a deixar tudo – identidade, memórias e até mesmo os verdadeiros pais – para ter uma “segunda” oportunidade, resumida ao trabalho infantil.

Por mostrar mais a viagem de Jim e seus dois irmãos menores, o roteirista se concentra nos detalhes da viagem e da adoção em si. A princípio, pouco se vê do destino dos personagens, mas pode-se ter uma noção pelas atitudes das pessoas que querem “adotar” as crianças em cada lugar que o trem para.
Muitos olhavam os dentes como se fosse gado, outros se queixavam de não ter mais meninas na seleção. Tudo isso implica no futuro que elas teriam naquele ambiente.

Até o final do programa, no ano da Grande Depressão, em 1929, estima-se que mais de 250 mil crianças foram enviadas ao Centro-Oeste norte-americano, estipulando atualmente mais de dois milhões de descendentes diretos dessas pessoas que tiveram suas raízes arrancadas das suas vidas.

Philippe Charlot faz um instigante jogo de idas e voltas entre 1920 e 1990, que mantém a atenção do leitor. No final, as dúvidas são sanadas e as consequências são bem atadas pelo roteirista, principalmente num bem engendrado ato de vingança.

Apesar do lado sério, há também espaço para o cômico, mesmo sendo trágico, vide as ações desesperadas de Jim para manter os irmãos juntos ou as peraltices de Harvey que remetem a Tom Sawyer e Huckleberry Finn, clássicos personagens de Mark Twain (1835-1910).

A bonita arte de Xavier Fourquemin tem sua origem na tradicional escola da linha clara franco-belga, com personagens cartunescos interagindo em cenários realísticos e detalhados. Outro destaque são as paletas de cores sóbrias e precisas escolhidas por Scarlett Smulkowski.

A edição do selo 8Graphics da BesouroBox tem capa cartonada, papel couché de boa gramatura, excelente impressão e uma série de extras que mostram fotografias, mapas e mais informações sobre a história real do programa.

De negativo, a impressão da capa está sem tanta nitidez quanto o miolo (e isso não é relacionado ao aspecto “fantasmagórico” que evoca a memória do personagem presente nela), o primeiro texto do material extra está muito perto da margem e o formato (16 x 24 cm) não casa com a diagramação, dando mais espaço acima e abaixo nas páginas (o original era menos “alongado”, 25 x 32 cm).

Houve também alguma desatenção na revisão, como a falta do acento circunflexo na sentença “O quê?”, na página 17, e a redundância no “…há 70 anos atrás!!!”, na 69.

Independentemente disso, a edição nacional não descarrila em algo mais grave e integra uma soma muito bem-vinda do material europeu geralmente ignorado no Brasil, assim como essa passagem da História da formação dos Estados Unidos.

Apesar de fechar um ciclo, fica a curiosidade de saber mais sobre o destino dos personagens e o desenrolar da narrativa de Philippe Charlot e Xavier Fourquemin.

Em tempo: para quem quiser saber mais sobre o tema, existe um livro de mesmo nome que saiu por aqui pela Editora Planeta, escrito por Christina Baker Kline e que já vendeu mais de um milhão de exemplares. É um romance com base em pesquisas e entrevistas da autora feitas com homens e mulheres que foram passageiros do obscuro trem.

Título: O trem dos órfãos
Autor: Philippe Charlot, Xavier Fourquemin e Scarlett Smulkowski
Páginas: 104 • Formato: 16 x 24cm •
Acabamento: capa cartonada •
R$  42,00
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(Resenha publicada originalmente no site Universo HQ )

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