sábado, 21 de agosto de 2010

É Tudo Mais ou Menos Verdade

O jornalismo investigativo, tencencioso e ficcional  do Allan Sieber


O livro de Allan Sieber reúne diversas histórias de um humor ácido e sarcástico, que tiram onda do Rio de Janeiro, cidade onde o jornalista/cartunista mora, e Porto Alegre, onde ele nasceu. O livro é dividido em duas partes. A primeira é em preto e branco e papel fosco. A segunda parte é colorida, em papel brilhante e encerra o livro com uma entrevista, feita por Phillipe Poncet, que traduz o trabalho de Sieber para o francês.


Allan não deixa nada passar em suas histórias. A maior parte das tiras foram publicadas nas revistas Trip, Sexy e Piauí, dentre outras, ainda que haja histórias inéditas, e mostram uma cobertura nada convencional de eventos como o Fashion Rio e o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Há, ainda, histórias puramente fictícias, como a que apresenta Adolf Hitler, ou Seu Dodô, como um querido morador do Leblon, refugiado no Rio desde o final da Segunda Guerra.

De desfiles de moda à favelas, passando por um hilário, absurdo e - infelizmente - provável workshop de sedução*, Sieber não deixa nada nem ninguém escapar de sua crítica social. Mesmo nas tiras que envolvem animais falantes imaginários, algum apecto da realidade no Rio é exposto. E, claro, Allan não deixa de lado alguma zoação sobre seus próprios amigos e sua vida, já que diversas vezes recorre à sua infância e adolescência para contar a história.

Sim, a gritaria por causa dos times no Rio é a mais pura realidade.

*No início da história, Allan Sieber afirma ter sido escalado pela Playboy para fazer o tal workshop e ver como é, o que rende uma das melhores histórias do livro.

É Tudo Mais ou Menos Verdade, do Allan Sieber
Publicado em 2009 pela editora Desiderata
Brochura.
124 páginas.
Formato: 28 x 21 cm
R$ 45,00

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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Na Prisão, de Kazuichi Hanawa


O mangá autobiográfico conta a história do período que Hanawa passou preso, a rotina da prisão e seus pensamentos enquanto estava lá. Como menciona Tomohide Kure na introdução, as cartas que davam maior prazer aos presos eram aquelas com assuntos corriqueiros do dia-a-dia. Aqui, o caminho inverso foi feito. Sem a pretensão de fazer uma denúncia ao sistema carcerário japonês, o mangaká traça a história de seus três anos preso através dos pequenos afazeres, da comida e da tentativa de manter sua identidade.

O quadrinista foi preso em 1994 por porte ilegal de armas. Ele colecionava armas de brinquedo e logo passou a comprar armas modificadas. Foi descoberto e preso pela polícia quando as testava nas montanhas. Julgado e condenado, Kazuichi passou alguns anos encarcerado e mostra, ainda que atrás das grades, uma cultura completamente diferente da nossa.


A vida na prisão e a mentalidade dele são coisas completamente surreais, se compararmos com a nossa realidade. Apesar de seu crime não ser algo sério como um roubo ou assassinato, Kazuichi não se acha merecedor daquilo que recebe na prisão: refeições completas e saborosas, privilégios como banho, trabalho etc. A organização e limpeza são coisas extremamente valorizadas, podendo haver punição por qualquer coisa que não esteja em seu devido lugar e os próprios detentos cuidam uns dos outros para que tudo esteja onde deve estar, na hora e do jeito que deve estar.

Os quadrinhos não apenas nos deixam com água na boca, devido ao desfile de comidas que parecem deliciosas, mas também levam a uma reflexão sobre nosso próprio país, ainda que não tenha sido a intensão do autor.

Na Prisão, de Kazuichi Hanawa

Lançado no Brasil em 2005 pela editora Conrad.
Brochura.
416 páginas.
Formato: 16 x 23 cm
R$ 35,00

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Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet


Já falei aqui de Persépolis e Bordados, histórias em quadrinhos em preto e branco, autobiográficas, com traços simples e uma leitura deliciosa. Kiki está, definitivamente, na mesma categoria. Recebeu os prêmios Prix Essentiel FNAC SNCF, no Angoulême 2008,  Grand Prix RTL Comic Strip, em 2007 e o Millepages BD, também em 2007.

Os traços de Catel Muller são, obviamente, diferentes dos de Satrapi e os desenhos são um pouco mais elaborados, mostrando o cenário e delineando partes da França no início do século XX. Ainda assim, há a preferência por um traço mais "clean", evidenciando os personagens em questão, as ações e as emoções. Catel se utiliza, inclusive, de closes bem fechados no rosto e, principalmente, nos olhos dos personagens, algo que provoca um efeito muito interessante no andamento da história.

Kiki nasceu Alice Prin, em Châtillon-sur-Seine em 1901. A mãe foi embora para Paris e deixou a pequena para ser criada pela avó, junto com os outros primos. Seu pai, desconhecido. Seu "padrinho", um vendedor clandestino de bebidas alcoólicas. Desde pequena, Alice era muito travessa e gostava de aparecer. O padrinho Jules a levava para os bares quando fazia suas entregas, e ela cantava para o público.


Aos doze anos, a mãe chama Alice para Paris, para aprender a ler e escrever e se tornar litógrafa, como ela. Passados dois anos, a mãe arranja para a adolescente um trabalho numa padaria, para tirá-la de casa. Lá, sua personalidade forte acaba por lhe trazer problemas, principalmente após conhecer um escultor. É expulsa da padaria e então começa sua vida de artista, modelo, cantora, pintora e escritora (ela chega a escrever uma autobiografia, o único livro com prefácio de Ernest Hemingway).


Adepta do amor livre e da boemia, Alice tem diversos amantes, a grande maioria do meio artístico e, do primeiro, o pintor Maurice Mendjisky, recebe o apelido Kiki, com o qual ficou conhecida como a Rainha de Montparnasse. Kiki era motivo de alegria para vários e de inveja para tantos outros. Teve amizade com diversos artistas, tanto pintores e escultores como escritores e cineastas. O livro de Catel Muller e José-Loius Bocquet retrata sua ascenção e sua queda como artista e como mulher forte e determinada, que não deixa de lado sua natureza contestadora, mesmo numa época em que ser mulher era difícil e o trabalho de modelo era mais desprezado do que o de prostituta.


No final, ainda há uma cronologia da vida de Kiki e dados biográficos dos artistas com os quais ela se envolveu, inclusive uma mulher. O romance (afinal de contas, um romance gráfico, mesmo que biográfico, é um romance) mostra que o amor, para Kiki, não apenas era livre como não tinha gênero, era livre de preconceitos e seu amor maior era pelo palco


A foto de Kiki que inspirou a capa do livro.
O rosto da musa.


Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet
Lançado no Brasil em 2010 pela editora Record.
Brochura.
416 páginas.
Formato: 17 x 24 cm
R$ 55,00

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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Disney apresenta: Clássicos da Literatura


Para comemorar os 60 anos da Revista Pato Donald no Brasil, a Disney lançou vinte edições comemorativas, numa série entitulada Clássicos da Literatura. A excelente iniciativa procura tornar o universo da literatura mais familiar para os seus leitores, que são crianças, em maioria.

Cada uma dos volumos contém histórias, algumas já publicadas, outras inéditas, ambientadas em textos clássicos, como Ilíada, Odisséia, Guerra e Paz e Dom Quixote. Boa parte dos gêneros literários é agraciada, de épicos à romances de guerra e ficção científica.

O que a série não é: uma reprodução fiel das histórias, o que não é um aspecto negativo, principalmente se tratando de uma obra voltada para o mundo infantil.  No volume 10, Guerra e Paz, por exemplo, por mais que os personagens da Disney assumam nomes dos personagens do romance e alguns trechos se pareçam, a tarefa de Donald é tentar salvar o ouro do Tio Patinhas das mãos tanto dos franceses que estão para invadir a Rússia quanto dos irmãos Metralha, sempre rondando a fortuna do pato sovina. Na mesma edição, há ainda uma adaptação de Crime e Castigo e uma história de 30 páginas, não ligada à um clássico, mas com link com a História, em que o Mickey e o Pateta voltam no tempo para descobrir o mistério de Napoleão: por que ele está sempre com a mão escondida sob o casaco?


O que a série é: fonte de informação e de curiosidade. No começo de cada edição, há uma nota que explica a relação de cada uma das histórinhas com a História ou os textos clássicos. O texto inicial pode funcionar como um trampolim para que, futuramente, o leitor procure a obra original. Ler uma história de personagens já conhecidos pela criança que se passa em um outro mundo ou contexto favorece leituras futuras. Oras, uma vez que se conhece as figuras de Ulisses e de Aquiles ou se tem informações sobre Tróia, presentes no volume 5, está plantada a semente da curiosidade.

Pode ser que o pequeno leitor da Disney não venha a se interessar por todos os originais citados, mas algum certamente vai chamar a atenção.

Capas



















 

Clássicos da Literatura Disney


Lançado no Brasil em 2010 pela editora Abril.
Brochura.
Cada edição tem cerca de 160 páginas. São, ao todo, 20 edições.
Formato: 14,7 x 20,7 cm
R$ 9,95 (cada edição)

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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Bordados, da Marjane Satrapi


Há quem diga que Bordados deveria ter sido apenas mais um capítulo de Persépolis. Não concordo. Após ler a HQ, vi que tem um tom bem diferente do outro livro. Ambos tem um papel de denúncia, de certo modo, mas a respeito de coisas bem diferentes.

Para as iranianas, uma tarde de bordados equivaleria a uma de tricô cá em terras tupiniquins: a famosa reunião de mulheres para compartilhar enriquecedores conhecimentos sobre a vida alheia (ou seja, fofocar), utilizando a desculpa de tomar um chá, um café ou comer um bolo. No Irã, elas tomam um tipo específico de chá e, numa reunião de mulheres da família e amigas íntimas, contam histórias e discutem as mais diversas situações.

O papo varia de casamentos arranjados, casar "com o coração ou com a cabeça", honra da família, divórcio... E, aparentemente, há sempre uma obrigatoriedade: que a mulher se case virgem. Tanto que bordado não é apenas a agradável conversa entre senhoras, das mais diversas idades. É também como elas chamam a cirurgia de reconstituição do hímen.

O livro é bem humorado, dispensa o requadro, o que parece tornar a leitura mais livre, dando a entender que a conversa entre as mulheres também é bastante livre. Marjane já é adulta no decorrer dessa história, mas ainda não é casada. Não ataca tão abertamente as mudanças feitas pela revolução islâmica, mas a cultura machista presente no país.

Ainda que seja uma sociedade dominada pelos homens, querendo ou não, quem coordena o lar é a mulher. Isso fica evidente na fantástica frase final, proferida pelo vovô Satrapi, que rompe fronteiras e se encaixa em praticamente todas as sociedades, com as devidas ressalvas para as características particulares de cada relacionamento.

Bordados, da Marjane Satrapi
Lançado no Brasil em 2010 pela editora Cia das Letras, na Quadrinhos na Cia.
Brochura.
136 páginas.
Formato: 14 x 19 cm
R$ 35,00

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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Persépolis, da Marjane Satrapi


Na graphic novel (ou melhor, romance gráfico) da iraniana Marjane Satrapi conta a história de como cresceu em meio às revoluções de seu país. Ela fala, também, sobre suas próprias revoluções, num livro dividido em quatro partes.

Marjane, bisneta do antigo rei da Pérsia, abre o livro com uma ligeira explicação das mudanças políticas no país até aquela que alterou a sua vida. Em 1979 a revolução islâmica derrubou o xá do Irã e ela, que vinha de uma família de esquerda, ocidentalizada e moderna, acostumada a ter dois meninos como melhores amigos e a estudar numa escola francesa, laica e mista, se vê obrigada a adotar o véu e, com ele, diversas outras mudanças de ordem religiosa.

Agora, não pode mair ter meninos como amigos, as turmas de homens e mulheres são separadas tudo o que vem do ocidente é pecado - ou pior: crime. A garota, muito inteligente, revolta-se e contesta aquilo que está vivendo. Vê os adultos à sua volta sendo punidos por possuírem ideologias diferentes da islâmica. Cresce num constante embate entre o que é normal e o que é certo.

Percebi que a narração parece acompanhar o crescimento da garota. Parece condizente com sua idade em cada uma das quatro partes que fazem esse volume. E mostram desde a contestação infantil até sua ida para a Europa, a revolta adolescente, os perrengues que passou dentro e fora do Irã até achar seu lugar.

O traço é simples, em preto e branco, o que parece facilitar o entendimento do teor da história, como um todo. A narrativa é tão envolvente que chegamos a nos perguntar se certas coisas realmente aconteceram à autora ou se apenas à personagem. Persépolis é uma crítica à situação política do país, uma tentativa de fazer outras cabeças questionarem e contestarem e uma amostra de como crescer é complicado, ainda mais para uma mulher num país sob o domínio da revolução islâmica.

Persépolis Completo, de Marjane Satrapi
Lançado no Brasil em 2007 pela editora Cia das Letras. Brochura.
352 páginas.
Formato: 16,5 x 24,5 cm
R$ 45,00

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sábado, 14 de agosto de 2010

Nova York, de Will Eisner

A série Quadrinhos na Cia., da Cia. das Letras, estreou com Nova York: A vida na grande cidade, do grande Will Eisner. A obra é uma reunião dos livros Nova York: A vida na grande cidade, O Edifício, Cadernos de tipos urbanos e Pessoas Invisíveis, além de novas ilustrações e uma história inédita, sobre a cidade de São Paulo, lançada exclusivamente (pelo menos é o que diz na nota do editor) no Brasil.

O livro conta a história de Nova York e seus habitantes, através da arquitetura. São mostrados os mais diversos tipos de relações, de interpessoais à relação com as fissuras das calçadas, os prédios, mobiliário urbano e  os meios de transporte.

De colorido, só tem a capa, mas nem de longe isso interfere na narrativa. As páginas em preto (ou marrom) e branco, muitas vezes sem requadro e desobedecendo regras da narrativa em quadrinhos (que o autor conhece muito bem, tanto que é um dos principais teóricos na área) trazem histórias envolventes sobre uma cidade viva, que muda de personalidade de acordo com o habitante e mostra que sempre pode ser palco para uma nova história.

Os personagens - pessoas ou prédios - são tão humanos quanto se possa ser. Insatisfeitos, apressados, em mutação, nem sempre felizes, mas nem sempre tristes, espremendo-se em espaços minúsculos, barulhentos e poluídos. Falando assim, parece uma situação trágica, mas há quem goste. Um cantinho no Centro da cidade pode ser exatamente o que um casal de idosos quer, não uma pacata vida no campo, aturando grilos. A cidade apresenta-se como é, e os moradores vão moldando, ou ela ou a si mesmos, a seus gostos e necessidades.

Nova York, de Will Eisner
Lançado no Brasil em 2009 pela editora Cia das Letras, na Quadrinhos na Cia.
Brochura.
439 páginas.
Formato: 20 x 27cm
R$ 55,00

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